quinta-feira, janeiro 13, 2011

Tudo o que você acha que sabe sobre a ''Idade das Trevas'' está errado

"Gerbert d'Aurillac foi o primeiro cristão a ensinar matemática usando os nove algarismos arábicos e o zero. Ele arquitetou um ábaco, que imita os algoritmos que usamos hoje para somar, subtrair, multiplicar e dividir. Ele foi chamado de primeiro dispositivo de contagem na Europa a funcionar digitalmente – até mesmo o primeiro computador."

Nancy Marie Brown escreve sobre ciência, história e sagas históricas. É autora, mais recentemente, de The Abacus and the Cross: The Story of the Pope Who Brought the Light of Science to the Dark Ages [O Ábaco e a Cruz: A História do Papa que trouxe a Luz da Ciência para a Idade das Trevas] (Ed. Basic Books, dezembro de 2010).

Seus livros anteriores incluem ainda Far Traveler: Voyages of a Viking Woman e Mendel in the Kitchen: A Scientist Looks at Genetically Modified Food, que foi nomeado um dos melhores livros de ciência e tecnologia para leitores em geral de 2004 pelo Library Journal. Ela mora em East Burke, Vermont, nos EUA.

A reportagem é do sítio Religion Dispatches, 02-01-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

O que lhe inspirou a escrever The Abacus and the Cross?

Fui apresentada ao Papa Cientista por um ato de graça. Ao escrever meu livro anterior, The Far Traveler, sobre uma mulher viking aventureira, eu me vi fazendo uma peregrinação imaginária a Roma logo após o ano 1000. Imaginando qual Papa Gudrid, o viajante-distante, havia encontrado (se é que havia encontrado), eu descobri Gerbert d'Aurillac (imagem), o Papa Silvestre II. Fiquei surpresa. Nada nos meus muitos anos de leitura sobre a Idade Média havia me levado a suspeitar que o Papa no ano 1000 era o principal matemático e astrônomo da sua época.

A sua ciência também não era apenas um aspecto secundário. Segundo um cronista que o conheceu, ele surgiu de origens humildes para chegar ao cargo mais alto da Igreja Cristã, "em razão do seu conhecimento científico". Na minha opinião, o conhecimento científico e o cristianismo medieval não tinham nada em comum. Eu estava errada.

Eu me senti como se eu tivesse tropeçado em um universo paralelo, uma história alternativa da Idade Média que havia sido criada perfeitamente para mim. Em grande parte da minha carreira, eu trabalhei como uma escritora de ciência, mas meu coração havia sido previamente capturado por sagas medievais. A história do Papa Cientista – um pesquisador chamou-o de "Bill Gates do final do primeiro milênio" – era uma história que eu precisava contar.

Não me incomodou que, há cerca de 70 anos após a sua morte em 1003 até hoje, ele ficou conhecido não como um cientista, mas como um feiticeiro – um bruxo que vendeu sua alma ao diabo. De acordo com um escritor do século XIII, ele foi "o melhor necromante da França, a quem os demônios do ar prontamente obedeciam para tudo o que ele precisava deles, de dia e de noite".

Mas eu descobri que a verdade sobre a vida de Gerbert, uma vez que eu a encontrei, ainda mais fascinante. Professor de uma escola da catedral em grande parte de sua vida, Gerbert d'Aurillac foi o primeiro cristão a ensinar matemática usando os nove algarismos arábicos e o zero. Ele arquitetou um ábaco, ou tabela de contagem, que imita os algoritmos que usamos hoje para somar, subtrair, multiplicar e dividir. Ele foi chamado de primeiro dispositivo de contagem na Europa a funcionar digitalmente – até mesmo o primeiro computador. Em uma cronologia da história do computador, o ábaco de Gerbert é uma das únicas quatro inovações mencionadas entre 3000 a.C. e a invenção da régua de cálculo, em 1622.

Como um cientista moderno, Gerbert questionou a autoridade. Para saber qual das duas réguas de cálculo calculavam melhor a área de um triângulo equilátero, ele cortou quadrados de uma polegada de pergaminho e mediu o triângulo com eles. Para saber por que os tubos do órgão não se comportam acusticamente como cordas, ele construiu modelos e concebeu uma equação. (Um físico moderno que verificou o seu resultado chamou-o de genial, além de um trabalho intensivo.)

Gerbert fez tubos de observação para observar as estrelas e construiu globos em que suas posições eram registradas em relação às linhas de longitude e latitude celestiais. Ele (ou mais provavelmente o seu melhor aluno) escreveu um livro sobre o astrolábio, um instrumento para contar o tempo e para fazer as medições ao sol ou às estrelas. Você pode até mesmo usá-lo para calcular a circunferência da Terra, que Gerbert e seus colegas sabiam muito bem que não era plana como um disco, mas redonda como uma maçã.

Uma aprendizagem tolerante

Gerbert aprendeu grande parte dessa ciência quando jovem, vivendo na fronteira da Espanha islâmica, uma cultura extremamente tolerante em que a aprendizagem era premiada. Nascido em uma família camponesa das montanhas da França em meados dos anos 900, Gerbert entrou no mosteiro beneditino de Aurillac ainda menino. Ele aprendeu a ler e a escrever em latim. Estudou Cícero, Virgílio e outros clássicos. Ele impressionou o professor com sua habilidade para debater. Era um excelente escritor também, com um estilo sofisticado, agraciado com floreios retóricos. Para continuar sua educação, seu abade enviou-o ao sul da Barcelona cristã, que então tinha relações diplomáticas com o califado islâmico de Al-Andalus.

Na biblioteca do califa de Córdoba, havia pelo menos 40 mil livros (alguns dizem mais de 400 mil). O mosteiro francês de Gerbert possuía menos de 400. Muitos dos livros do califa vieram de Bagdá, conhecida pela sua Casa da Sabedoria, onde, por 200 anos, trabalhos sobre matemática, astronomia, física e medicina haviam sido traduzidos do grego, do persa e do hindu e, posteriormente, desenvolvidos por estudiosos islâmicos sob o patrocínio do seu califa. No mundo que Gerbert conhecia, o árabe era a língua da ciência. Durante sua vida, os primeiros livros científicos árabes foram traduzidos ao latim por meio dos esforços combinados de estudiosos muçulmanos, judeus e cristãos.

A ciência era de tal importância que esses estudiosos estavam dispostos a ignorar todas as suas diferenças políticas e religiosas. Cristãos, muçulmanos, ou judeus, árabes ou franceses, saxônicos ou gregos, eles se sentavam juntos para traduzir livros, fazer instrumentos científicos e para aprofundar o seu conhecimento de matemática, astronomia e lógica. Muitos desses estudiosos eram homens da Igreja, e alguns se tornaram amigos vitalícios de Gerbert.

A história de Gerbert d'Aurillac me fez perceber que os grandes conflitos em nosso mundo de hoje, entre cristianismo e Islã, entre religião e ciência, não é inevitável nem incontornável.

A sua história me ensinou que um mundo baseado na paz, na tolerância, na lei e no amor de aprender não é um mundo de fantasia – e nem um universo alternativo, afinal. Por um curto período de tempo em torno do ano 1000, ele realmente existia.

Ao longo da minha busca para descobrir o Papa Cientista, visitei a catedral de São João de Latrão, em Roma, onde sua lápide de mármore está hoje debaixo de um pilar nna nave direita. O Papa Sérgio IV, que havia sido o bibliotecário papal de Gerbert, escreveu o seu epitáfio. Lê-se, em parte: "O imperador, Otto III, a quem ele foi sempre fiel e dedicado, amava-o muito e ofereceu-lhe esta igreja de Roma. Eles iluminaram o seu tempo imperador e papa, pelo brilho de sua sabedoria. O século se alegrou". Com a morte de Gerbert, disse Sérgio, "o mundo se escureceu, e a paz desapareceu".

Como essas palavras proféticas, escritas em 1009, ainda ressoam. Menos de 100 anos mais tarde, um Papa lançaria a primeira Cruzada, e o Papa Cientista seria tachado de bruxo e adorador do diabo por ter ensinado a ciência que havia entrado na Europa cristã a partir da Espanha islâmica.

Qual é a mais importante mensagem para levar para casa para os leitores?

A imagem popular da Idade das Trevas está errada. A Terra não era plana. As pessoas não estavam aterrorizadas pelo fato de que o mundo iria acabar à meia noite do dia 31 de dezembro de 999. Os cristãos não acreditavam que os muçulmanos e os judeus eram o inimigo. A Igreja não era anticientífica.

Na Idade das Trevas, ao contrário do que muitos pensam, a ciência era central para as vidas dos monges, dos reis, dos imperadores e até mesmo dos papas. Ela era a marca da verdadeira nobreza e a maior forma de adoração a Deus.

Quais são alguns dos maiores equívocos sobre o seu tema?

A maioria dos livros sobre a Idade das Trevas ignoram a ciência, o que significa que as pessoas medievais não tinham interesse nela. Livros que fazem referência à ciência medieval são muitas vezes densos e técnicos, escritos por especialistas para especialistas. Eles se concentram muito de perto em um assunto – a história da geometria, a história do astrolábio –, deixando de dar o quadro mais amplo de uma curiosidade científica vibrante.

Mesmo esses livros geralmente ignoram a era de Gerbert (950-1003), saltando das reformas escolares de Carlos Magno nos anos 800 à primeira tradução completa ao latim dos Elementos de Euclides, em meados dos anos 1100, pela boa razão de que os manuscritos e instrumentos que atestam as conquistas de Gerbert como cientista e professor só foram identificados nos últimos dez anos. As notícias sobre eles não ultrapassaram o menor dos círculos acadêmicos. A maioria das descobertas ainda não foram publicadas em inglês.

Muitos livros sobre a Idade das Trevas falam de guerra, fome e peste, das invasões vikings e das atrocidades sarracenas, das origens das Cruzadas e dos conceitos em crescimento de feudalismo e cavalaria. Eles se concentram em uma língua, ou em uma nação, ou em um império. Ao olhar, ao contrário, para um homem – cuja vida passou por muitos impérios, nações e línguas, e que cruzou as aparentes divisões entre religião e ciência, o claustro e o palácio –, espero mudar a percepção dos leitores sobre a Idade das Trevas.

Você tem um público específico em mente?

Eu escrevi The Abacus and the Cross para todos os interessados na Idade Média ou na história da ciência. Mas minha esperança secreta é de que os escritores de fantasia, como Judith Tarr e Kate Elliott, usem-no como uma fonte em seus romances futuros. Eu gostaria de ver a Idade das Trevas se tornar menos monolítica na ficção em geral. Nos filmes, videogames e romances históricos, você nunca vê um monge medieval que seja um verdadeiro cientista, mas existiram muitos deles. Gerbert não foi excepcional nesse sentido. Ele era um típico monge do século X, embora sendo um professor com mais dons do que a maioria.

Qual a sua intenção ao publicar o livro?

Um bom livro de não ficção informa e diverte. Eu quero abrir os olhos dos leitores para um mundo em que esteve ausente, o mundo da ciência da Idade das Trevas.

Enquanto trabalhava no livro, por exemplo, eu encontrei este parágrafo em uma história publicada em 1999 por um vulcanólogo bem conhecido:

Trabalhos acadêmicos sobre a natureza da Terra pararam no fim do período clássico e da queda do Império Romano na Idade das Trevas (ca. 400 d.C. a 1000 d.C.), e pode-se dizer que, com a ascensão do Cristianismo, o continente europeu sofreu uma amnésia acadêmica durante a Idade Média até por volta do ano 1300 d.C. Algumas aprendizagens e conhecimentos da natureza herdados dos escritores da antiguidade sobreviveram nos mosteiros, mas pouco progresso foi feito na pesquisa filosófica ou científica – e os estudos sobre a natureza e a origem da Terra eram praticamente inexistentes. Os impedimentos impostos pela nova religião eram muitos – nenhuma opinião que contrariasse as crenças ortodoxas era permitida. O dogma escritural levou a um recuo do conhecimento em todas as frentes relativas à ciência da Terra, até mesmo a um recuo ao conceito de uma Terra plana.

Eu pedi que o meu editor enviasse ao autor, que desde então se tornou meu amigo, uma cópia de The Abacus and the Cross. Eu não quero nunca mais ler tal absurdo em um trabalho sério de história novamente. Ninguém no ano 1000 pensava que a Terra era plana.

Até mesmo o mais místico dos cronistas da época, Rodolfo, o Calvo – que registrou todos os sinais e maravilhas que pressagiavam o Apocalipse e atribuiu a cada ato e evento à vontade de Deus – sabia que a Terra era redonda. Descrevendo a insígnia imperial, ele disse que ela era "feita sob a forma de uma maçã de ouro ao redor de um quadrado com todas as joias mais preciosas e encimada por uma cruz de ouro. Assim, era como esta terra volumosa, que tem a reputação de ter a forma de um globo".

Eu queria dar vida à erudição moderna, ao invés de simplesmente relatá-la. A própria vida de Gerbert era bastante complicada. Além de ser cientista e professor, ele era espião, traidor, fazedor de reis e visionário.

Ele e o jovem imperador Otto III partilharam um sonho. Gerbert incentivou Otto a se ver como um segundo Carlos Magno – com sangue bizantino real. Otto poderia reunir Roma e Constantinopla, expandindo o Sacro Império Romano (então com apenas partes da Alemanha e da Itália) para recriar o vasto império unificado dos Césares. Otto e Gerbert trouxeram dois dos flagelos da Europa – os vikings, no norte, e os magiares húngaros, no leste – para o rebanho cristão. Eles estabeleceram a Igreja Católica Polonesa e enviaram missionários para os prussianos, suecos e outras tribos pagãs. Fortaleceram os laços do império com a Espanha e negociaram com Constantinopla.

Mas Otto morreu em 1002, com apenas 22 anos, e Gerbert, um ano depois – alguns dizem que morreu de luto. Seus planos para um Império Cristão baseado na paz, na tolerância e no amor à aprendizagem morreram com eles.

Quais são seus próximos projetos?

Estou começando um livro sobre o escritor islandês Snorri Sturluson (imagem), do século XIII. Para mim, o momento artístico definitivo do século XX foi a publicação de O Hobbit, de J. R. R. Tolkien, em 1937. A partir desse livro e de sua continuação, O Senhor dos Anéis, em 1954, toda uma indústria foi criada – não apenas de romances de fantasia, mas também de filmes de fantasia, videogames, jogos de tabuleiro, jogos online etc.

No entanto, as ideias que tornam Tolkien popular não são todas originais. Muitas são trabalhos de Snorri Sturluson. Sem Snorri, as fantasias modernas não incluiriam elfos altos, bonitos, imortais, nem elfos escuros ou orcs maldosos, nem anões que fabricam armas em seus salões de pedra, nem fazendeiros pacíficos que se metamorfoseiam em ursos à noite, nem dragões enigmáticos, nem águias gigantes que carregam homens, ou pessoas que voam ao vestir um manto de penas, nem magos errantes que conversam com os pássaros.

Os milhões de leitores de todo o mundo que gostam desses elementos de fantasia não tem ideia de como eles têm uma dívida de gratidão à Islândia medieval. Eles não têm ideia

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