domingo, dezembro 19, 2010

Muito além do ateísmo: Deus (não) inexiste

A maioria dos ateus não vão além do segundo nível de pensamento, o da negação simples. Eles se recusam a ir além, a questionar seriamente o chão debaixo dos seus pés. E, mantendo, conscientemente ou não, suas suposições injustificadas, eles acabam rejeitando muito pouco.

A análise é de Paul Wallace, ex-professor de astronomia e física do Berry College, em Rome, na Geórgia, nos EUA, e mestrando em teologia pela Candler School of Theology, da Universidade de Emory, em Atlanta. O artigo foi publicado no sítio Religion Dispatches, 14-12-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

No ano passado, eu fiz uma apresentação em uma faculdade sobre ciência e fé. Falei da minha atração à chamada teologia negativa ou apofática. Essa teologia é mais proeminente nas Igrejas orientais, mas está definitivamente presente no Ocidente também e constrói-se a partir da teologia mais convencional, quebrando-a em uma série de negações sistemáticas. Pode parecer estranho – o fato de ela se construir pela negação –, mas esse é um paradoxo importante

Após a apresentação, um colega levantou a mão e perguntou como essa teologia difere do ateísmo. Fiquei surpreso, mas não porque a sua pergunta me ofendeu. Ao invés disso, chamou-me a atenção o quão bem o questionador havia entendido o que eu havia dito. Enrolei um pouco, sem saber o que dizer a ele. Eu escapei com algumas observações enigmáticas, como: esta teologia está além do ateísmo. Eu não disse isso sem querer, embora não o tenha entendido na época. Mas agora sim.

Ateísmos muito simples

Foi um cavalheiro chamado Denys Turner que me ajudou a descobrir. Turner é professor de teologia da Universidade de Yale. Na semana passada, li um impressionante ensaio seu chamado "Apofaticismo, idolatria e as alegações da razão". Nele, ele conta esta história.

"Alguns anos atrás, e em dias jovens e mais temerários, encontrando-me em um beco sem saída em um debate público com um filósofo ateu da Universidade de Bristol, eu fiz uma aposta com o público: eu daria a qualquer um dos presentes cinco minutos para explicar sua razões pelo ateísmo e se, depois disso, eu não conseguisse adivinhar a denominação cristã em que essa pessoa havia sido criada, eu lhe pagaria uma cerveja. Para a minha sorte, eu não fiquei sem dinheiro."

Acontece que ele não ficou sem dinheiro porque ninguém aceitou a aposta. Mas história aponta para uma ideia muito interessante que Turner detalha ao longo de seu ensaio: o ateísmo dos ateus mais comprometidos e de princípios muitas vezes não é mais do que imagens espelhadas – inversões – dos teísmos que eles negam. Em "Sobre a Interpretação", Aristóteles escreveu: "As afirmações e suas negações correspondentes são um no mesmo conhecimento". Portanto, pode-se inferir dos muitos ateísmos suas teologias afirmativas correspondentes.

Turner também escreve que, muito frequentemente, os teísmos atacados pelos ateus não são muito interessantes. Portanto, os ateísmos dos ateus mais comprometidos e de princípios não são muito interessantes. O porquê disso não fica claro. Talvez seja porque, em muitos casos, o teísmo foi abandonado antes de lhe ter sido dado tempo para se transformar em algo de substância.

"Os ateus rejeitam muito pouco", escreve Turner: "É por isso que os seus ateísmos não possuem interesse teológico. O rotineiro ateu de princípios apenas brinca com a religião". Essa afirmação, com a qual eu concordo, será desenvolvida no restante deste ensaio. Para falar mais especificamente sobre isso, eu decidi investigar as crenças declaradas de um único ateu. Como eu tenho alguns livros de Richard Dawkins na minha estante da sala de estar, e como o seu ponto de vista é conhecido por muitos, me decidi por ele.

O teísmo invertido de Dawkins

Em "Deus, um delírio", Dawkins apresenta seu argumento central contra a existência de Deus no quarto capítulo. Seu pensamento é algo como: o universo é algo complexo. Portanto, o Deus dos cristãos, que, dizem os cristãos, fez o universo deve ser pelo menos tão complexo quanto o universo que Deus fez. Assim, ficamos com um problema ainda maior do que antes: quem fez esse Deus ultracomplexo? Um mega-Deus hipercomplexo? Faz todo o sentido, de acordo com a navalha de Occam, parar antes de chegarmos ao primeiro Deus. O universo complexo é o suficiente. Logo, muito provavelmente, Deus não existe.

Esse argumento, que se resume a "Bem, quem fez Deus, então?", pressupõe que Deus é uma coisa como qualquer outra. Assume-se que Deus deve existir da mesma forma que a lua existe, da mesma forma que o próprio Dawkins existe. Como Terry Eagleton escreveu na sua agora infame resenha (disponível aqui, em inglês) de "Deus, um delírio", Dawkins parece pensar que Deus é "um superobjeto celestial ou um OVNI divino", uma criatura assim como outras criaturas, só que maior e mais inteligente: uma espécie de übercoisa, mas ainda assim uma coisa.

Se Deus é uma coisa como qualquer outra, então seu argumento é realmente bom: qualquer máquina fazedora de coisas, que é em si mesma uma coisa assim como qualquer outra, deve ser pelo menos tão complexa como a coisa que ela faz. No caso de Deus, o problema é pior, por causa da alegação cristã padrão de que Deus não apenas criou o universo, mas o sustenta também. Então, se Deus é uma coisa como as outras, então a ideia de Dawkins está bem elaborada.

Mas em nenhum momento Dawkins sai de si mesmo e pergunta: a minha suposição de que Deus é uma coisa como qualquer outra é realmente necessária? Ou em que se baseia essa suposição? De onde ela vem?

A verdade é que, apesar de todas as suas afirmações em contrário, Dawkins é um fundamentalista. No prefácio à edição de bolso de "Deus, um delírio", ele tenta distinguir-se dos fundamentalistas religiosos, afirmando que "nada vai mudar suas opiniões". Isso é verdade. O fundamentalista religioso médio é dogmaticamente rígido e fixado. A seu ver, no entanto, Dawkins é um modelo de humildade de mente aberta. Ele escreve: "Se todas as evidências do universo se colocassem a favor do criacionismo, eu seria o primeiro a admiti-lo e imediatamente mudaria de opinião". Mas Dawkins ignora completamente o verdadeiro problema, que não tem nada a ver com o criacionismo ou a evolução.

O que está em questão aqui é que Dawkins se recusa a examinar o campo em que ele se encontra: a própria ciência. Isto é, Dawkins pode mudar de ideia sobre a evolução, mas nada vai mudar a sua opinião sobre a ciência. Ele nunca vai questionar – de forma séria – a suficiência da ciência como um guia para a verdade. Talvez ele pense que o sucesso da ciência torna-a uma escolha óbvia no que se refere à fundamentação da sua visão de mundo. O que ele não faz e não irá considerar é a possibilidade muito real de que a ciência é muito bem sucedida, precisamente porque é muito limitada. Rejeitar essa possibilidade de antemão nada mais é do que preguiça intelectual. Dawkins é dogmaticamente rígido e fixado. Ele é um fundamentalista.

Ele deve ser um fundamentalista, porque a única teologia que ele já atacou com sucesso foi o fundamentalismo, um alvo vergonhosamente fácil. Mas é a única teologia que ele conhece, a única teologia que ele pode imaginar. Portanto, para Turner, é a única teologia que o seu próprio ateísmo está equipado para negar, o que ele mesmo demonstra de forma muito bonita no capítulo três de "Deus, um delírio". Essa é a parte do livro na qual ele aborda e rejeita sumariamente, em menos de dez páginas e com toda a sutileza de uma roda de ferro, a obra de Tomás de Aquino e de Anselmo de Cantuária. Ao contrário desses teólogos, Dawkins se recusa a sair de si mesmo e a ter um olhar crítico sobre suas próprias suposições.

"Bem", se poderia rebater, "as pessoas religiosas também se recusam a sair de sua própria religião e a criticar seus pontos de vista". Esse seria um argumento muito bom se fosse verdade.

O caminho negativo

Há, na teologia cristã, uma grande tradição de negar "Deus". Ao dizer isso, me refiro à negação de tudo o que pensamos saber sobre Deus, todos os conceitos que carregamos sobre Deus, toda a imagem que imaginamos de Deus, tudo o que Deus "é" nós. Para demonstrar como isso funciona, vamos considerar três níveis de afirmações sobre Deus. Além disso, serão utilizadas quatro imagens diferentes de Deus da Bíblia: a) Deus é uma chama, b) Deus é um rei, c) Deus é amor e d) Deus é o próprio ser (Eu Sou). Estas quatro imagens são apresentadas por ordem crescente de abstração.

O primeiro nível de falar sobre Deus é a afirmação simples. É típico dos cristãos usar declarações como as acima mencionadas ao falar sobre Deus. Essa é uma teologia catafática ou positiva convencional. Essa é a forma como quase toda a teologia popular do Ocidente é feita, seja no culto, nas devoções pessoais ou no estudo bíblico. Essas são declarações positivas, que significam o que os teólogos chamam de "Deus dos Atributos", isto é, o Deus que pode ser nomeado.

O segundo nível é negação simples, à maneira de Aristóteles. É menos comum para os cristãos negar as coisas de Deus, mas isso se faz. Acho que todo cristão concordaria que Deus não é uma chama, realmente, nem que Deus é o membro dirigente do sexo masculino de uma família real. Esses são casos óbvios de negação que não deveriam causar nenhuma dificuldade qualquer. É um pouco mais difícil para os cristãos dizer coisas como "Deus não é amor", mas os teólogos disseram coisas como essas durante séculos e queriam dizer isso mesmo também. O que isso significa é que Deus não é aquela sensação cálida ou mesmo aquele estado da vontade sinceramente centrado no outro que muitas vezes leva o nome de amor. Seja qual for a nossa mais alta concepção do amor, Deus não é bem isso.

O terceiro nível é o mais difícil, mas o mais importante. Essa é a segunda ordem de negação, ou a inversão da inversão. Aqui nós diríamos: "Deus não é uma chama, mas Deus também não é uma não-chama" e "Deus não é amor, mas Deus também não é não-amor". Deus transcende a distinção (baseada no ser humano) entre o amor e o não-amor. Obviamente, o que está acontecendo aqui é uma tensão deliberada da lógica verbal. Pode parecer como mera ginástica ou jogo mental, mas tem um propósito muito sério: questionar e testar a linguagem, sair de nós mesmos e nos perguntar o que estamos fazendo ao falarmos de Deus, criticar o próprio campo em que a teologia está, procurar esse lugar – se é que há um lugar – onde os conceitos falham.

Também nesse terceiro nível encontra-se a insistência, feita durante séculos pelos teólogos de toda a cristandade, de que Deus transcende a distinção entre o ser e o não-ser. Portanto, se usamos a definição convencional de existência, Deus não existe. Nossa categoria de existência não se aplica a Deus. Dito de outra forma, a palavra "existir" não pode ser usada univocamente para coisas e para Deus. Essas são categorias artificiais imaginadas e usadas pelos seres humanos. Elas não são manifestamente atributos divinos. No final, falando corretamente, não existem atributos divinos, o que significa que Deus não é diferente da criação, e que Deus também não é não-diferente da criação. Isto é, em Deus, não há distinção alguma, nem existe não-distinção. Nenhuma afirmação ou negação aplica-se corretamente a Deus.

Note-se que este segundo sentido da negação, a "negação da negação", não nos traz de volta simplesmente às nossas declarações positivas, por exemplo, de "Deus não é amor" de volta para a afirmação original, "Deus é amor." Ao invés disso, ela desafia a própria base do nosso pensamento e diálogo discursivo: linguagem e imagem. Ele arranca de nós as nossas suposição tácitas de que a linguagem e a imagem são suficientes para descrever a realidade.

O fim do assunto: "Todo tipo de ateu"

Agora eu posso explicar o que eu quis dizer quando falei àquele colega da faculdade que a teologia negativa está além do ateísmo: a maioria dos ateus de princípios não vão além do segundo nível de pensamento, o da negação simples. Eles se recusam a ir além, a questionar seriamente o chão debaixo dos seus pés. E, mantendo, conscientemente ou não, suas suposições injustificadas, eles acabam rejeitando muito pouco.

Há previsíveis contra-argumentos. Em primeiro lugar, pode-se dizer que esse tipo de teologia representa as crenças de apenas uma pequena fração dos cristãos. Os ateus focam justamente sobre a teologia mais convencional do paroquiano médio. Mas os ateus dizem que o cristianismo é falso, que Deus não existe. Pedir-lhes que defendem sua posição à luz de uma teologia madura nada mais é do que tomá-los pelas suas palavras e respeitar a sua inteligência.

Além disso, pode-se dizer que a teologia negativa é uma mensagem sem conteúdo e inútil, pois anula o uso do pensamento racional. Em certo sentido, esse é um argumento válido. Mas pode-se ir além da teologia negativa tendo em mente as suas lições. De fato, a teologia negativa constitui o sistema nervoso central, digamos, de toda a "Summa Theologica" de Tomás de Aquino, que Dawkins zomba de forma tão feliz e ignorante. Nessa obra, Tomás emprega a linguagem analógica para falar livremente sobre os atributos de Deus, sem a possibilidade de confundi-los com os atributos, digamos, do fogo, da realeza, do amor ou do ser.

Finalmente, pode-se dizer que a teologia negativa é apenas um jogo de mente que não tem nada a ver com a realidade. Certamente, as pessoas que fazem tal teologia nunca deixam realmente de acreditar em Deus. Se isso fosse verdade... A linguagem da teologia apofática é o tipo de discurso que faz o que diz, por isso, quando alguém diz ou escreve "Deus não existe" e gasta seu tempo com essa suposição, elaborando todas as suas consequências, tem o efeito de remover "Deus" da sua vida. Isso pode acontecer de forma lenta ou rápida, mas acontece. Esse é um dos aspectos mais poderosos da teologia negativa: ela limpa a mente não apenas das suposições sobre Deus, mas sobre os ídolos (como a ciência, por exemplo) que podem facilmente substituir Deus.

A maioria dos ateus rejeitam muito pouco. Eles só têm que ser um tipo de ateu: o ateu que se posiciona contra um tipo de superobjeto ridículo no céu, que se posiciona contra uma teologia infantil. Os cristãos, que, como os judeus, são mandados a não ter deuses diante de Deus, a não ter o luxo de desacreditar em tão poucas coisas. Nas palavras de Turner, "a fim de negar qualquer tipo de idolatria possível, um cristão deve ser todos os tipos de ateu possíveis". Somos mandados a ter fé não em alguma coisa, absolutamente. Somente então a nossa fé terá alguma chance de encontrar seu verdadeiro repouso em Deus.

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=39406

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