quarta-feira, maio 26, 2010

Nietzsche: o pensamento trágico e a incomensurabilidade da existência


Desde a primeira de suas obras, O nascimento da tragédia no espírito da música,Friedrich Nietzsche (1844-1900) foi considerado um filósofo trágico, influenciado pelos românticos alemães como Goethe, Schiller, Hölderlin, mas também por Arthur Schopenhauer, Richard Wagner e pré-socráticos como Heráclito, principalmente. “O contexto de surgimento da problemática do trágico no pensamento de Nietzscheencontra-se em suas obras de juventude, nas quais houve um predomínio da arte e da metafísica da vontade, inspiradas em Schopenhauer e Wagner”, acentua o filósofoOswaldo Giacoia, especialista no pensamento de Nietzsche, sobretudo no viés da filosofia política.

A influência do conceito de tragédia na filosofia nietzschiana foi o tema apresentado pelo pesquisador, docente na Universidade de Campinas (Unicamp), na noite desta segunda-feira, 24 de maio, dentro da programação do Ciclo de Estudos Filosofias da Diferença – Pré-evento do XI Simpósio Internacional IHU: O (des)governo biopolítico da vida humana.

De acordo com Giacoia, o trágico é o núcleo do pensamento nietzschiano, que lhe confere solidez e consistência, embora com inúmeras variações ao longo de sua obra. Assim, o trágico é o traço de unidade do estilo filosófico desse pensador.

A tragédia grega é o ápice da cultura daquele povo, expressão dialética dos contrários apolíneos e dionisíacos. Para Nietzsche, o pensamento trágico é uma compreensão “capaz de assumir e afirmar a totalidade da existência, na integridade de seus aspectos, incluindo o que nela existe de sombrio e luminoso, de alegre e doloroso, de desfalecimento e exaltação. Trágico é um pensamento capaz de acolher e bendizer tanto a criação como a destruição, a vida como a morte, a alternância eterna das oposições, no máximo tensionamento. Uma filosofia trágica prescinde de uma visão jurídica e culpabilizadora da existência, acredita na inocência do vir-a-ser, não nega nem condena, mas aceita a vida sem subtração e nem acréscimo. Uma existência trágica é aquela que, sem depender de uma crença na ordenação e significação moral do mundo, não considera o mal e o sofrimento como uma objeção contra a vida”. A postura de assentimento da integralidade da existência é a característica central dessa visão de mundo. Nada é negado, pois tudo faz parte do grande devir que atende pelo nome de vida.

Em sua conferência, Giacoia acentuou a importância de se compreender a concepção nietzschiana do caráter “perdulário” do universo: “a vida se dissipa na dor e na alegria”, assinalou. A essência do trágico em O nascimento da tragédia é a consciência artística impregnada da sabedoria dionisíaca, o equilíbrio entre a embriaguês e asophrosyne (o comedimento, a beleza harmoniosa e disciplinada).

Nietzsche chegou mesmo a acreditar que o compositor Richard Wagner pudesse ser o artista capaz de levar a termo o retorno da tragédia através da obra de arte total. É que o filósofo percebia em Wagner o “vigor artístico, ético, filosófico e político capaz de regenerar a capacidade de re-criar um público de artistas, não entorpecido pelos artificialismos da ópera e da crítica de arte, nem desertificado pela erudição e pelo historicismo”, disse Giacoia à entrevista que concedeu à IHU On-Line adiantando aspectos de sua conferência. “Wagner seria capaz de fazer reviver o mito pelo espírito da música, redescobrindo a profunda relação entre arte, religião e política, própria dos gregos da era da tragédia”.

Contudo, em Humano, demasiado humano, Nietzsche parece romper com suas concepções primeiras sobre o trágico. É como se a arte fosse postergada a um segundo plano, cedendo lugar a uma compreensão positivista e cientificista do mundo. De toda forma, essa problemática jamais abandona os escritos nietzschianos, que ganham estridência com o passar do tempo, quando sua filosofia se converte em aríete contra a moral e a vontade de verdade à qual devotamos esforços em desvelar, e contra o cristianismo, tendo em O Anticristo o seu ápice.

Justiça trágica

Fio condutor de todo o arcabouço nietzschiano, o trágico entende o mundo através de parâmetros tributários aos gregos arcaicos, e por isso guarda dificuldades para uma transposição de suas ideias para o mundo atual. Uma dessas dificuldades se dá na concepção de justiça, uma vez que Nietzsche resgata elementos como o conceito decrueldade inocente.

A crueldade dos nobres é interpretada como uma “crueldade inocente”, já que não é produzida propositadamente, por um comportamento reativo e premeditado, e sim advém do cerne do homem aristocrático, que age em função de sua compleição instintiva. Essa violência inocente estaria em outro patamar do que aquela desenvolvida pelos sacerdotes, os quais Nietzsche acusava de ressentidos e vingativos, posto que ruminavam a desforra por intermédio de um plano espiritual concretizado lentamente. A violência ressentida é o sinônimo e o sintoma de uma moral de escravos, que não agem em função de sua natureza, mas de uma represália calculada e recalcada.

Ao questionar-se se existe culpa, injustiça, contradição e sofrimento no mundo,Nietzsche diz, apoiando-se em Heráclito, que sim, mas apenas para os homens limitados. Assim, precisamos atentar para o fato de que o conceito de justiça nietzschiano deve ser entendido dentro da lógica da existência trágica grega, na qual o devir é a chave para captar as sutilezas dessa concepção. A justiça nietzschiana não é a mesma dos códigos positivos existentes em seu tempo ou em nossos dias, mas sim uma justiça fundamentada no jogo das pulsões apolíneas e dionisíacas, capazes de expressar a incomensurabilidade da existência.

A moral dicotômica e maniqueísta cede espaço a um entendimento totalmente outro de justiça, quando o feio, o informe, o vazio, o mal são peças importantes e inegáveis no processo deveniente. Em outros termos, a justiça trágica prima pelo retorno a uma naturalização do homem no sentido de uma superação constante de si, abrindo-se à autoconstrução, experimento, erro e alegria, mas alheio a qualquer noção de progresso.

Eterno retorno e ressentimento

Um dos temas mais complexos e instigantes de Nietzsche é o conceito de eterno retorno do mesmo. Die ewige Wiederkehr, ou literalmente o eterno retorno do mesmo, é uma provocação nieztschiana à ideia do progresso dos evolucionistas; à divisão em três etapas da história dos positivistas; à crença do cristianismo na salvação da alma, nascida em pecado e redimida pela graça. É uma retomada da concepção cíclica dos pitagóricos e dos estóicos que viam um eterno perecer e renascer da natureza e da história. Terminado o Grande Ano, tudo o que houve voltará a ocorrer, intermediado pelo fogo e pela destruição periódica, de modo que o eterno retorno se coloca contra a temporalidade histórica linear à qual o Ocidente se submete.

Em Nietzsche, esse conceito precisa ser interpretado na lógica de que cada instante ou realização humanas devem ser tratados como se fossem repetir-se indefinidamente, daí a necessidade de vivê-los da melhor maneira possível, justificando sua importância. Ao eterno retorno une-se a ideia da existência trágica, que reafirma cada fato como insubstituível em sua essência, quer bom ou mau. O homem deve amar a sua escolha (amor fati) e a sua existência, independente de sua dureza, de forma heróica, a tal ponto que possa querer a sua repetição eterna. O homem assumiria uma atitude dionisíaca, dizendo um grande sim à vida, mesmo que esta se mostre eivada de dor e sofrimento, e ainda que destituída de todo e qualquer valor teológico e teleológico.

Giacoia menciona que é calcada na concepção de tempo desse filósofo, junto com o conceito de tragédia, que se pode compreender melhor sobre o ressentimento. Em sua exposição, menciona que a raiz da vingança é a impotência dos seres humanos em relação ao “foi”, ao passado, que o homem carrega às costas como um peso morto. Ao invés de se arrepender e ressentir, o melhor é amar a nossas escolhas: Amor fati, diriaNietzsche. “O núcleo metafísico do ressentimento é a relação que temos com o tempo”, aponta Giacoia.

Reportagem: Márcia Junges

Um comentário:

FERNANDO disse...

Ei, Billy, Nietzsche dá pano pra manga - sem contar que o povo adora, haja visto o sucesso de "Quando Nietzsche chorou" (brilhante!!!). Parabéns pelo blog. Quando tiver tempo, dê uma passada lá no Deus no Gibi para ver as novidades que estão no ar. Tem um texto bacana falando que Chico Bento é o menino segundo o coração de Deus e uma entrevista com o autor da história em quadrinhos Yeshuah, que apresenta um Jesus feio e uma Maria adolescente. Veja lá no www.deusnogibi.com.br
Abraços