domingo, outubro 11, 2009

Entrevista com João Vila-Chã: A fúria do ateísmo contemporâneo tem cariz quase religioso

A maior objeção do filósofo português João Vila-Chã aos novos profetas do ateísmo, como Dawkins, Dennet e Harris, “tem a ver com o oportunismo da sua atitude, a qual, para mim, consiste sobretudo em tratar o problema de Deus como se este fosse um problema de Ciência (empírica, entenda-se), quando na realidade se trata de um problema teológico e filosófico”. Ele completa, dizendo que o ateísmo não é o problema maior destes autores, mas “a militância com que o promovem, baseados não em pura e rigorosa argumentação, mas no coligir, por vezes de forma muito estranha, meias-verdades, ou até puras não-verdades, para espalhar, com o vento das suas credenciais no campo da ciência, uma doutrina sem fundamento e, sobretudo, sem verdade”. As afirmações podem ser conferidas na íntegra na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line.

Licenciado em Filosofia, pela Faculdade de Filosofia de Braga da Universidade Católica Portuguesa (UCP), obteve o Diplom-Hauptprüfung (Katholischer Theologie), na Philosophisch-Theologische Hochschule Sankt Georgen em Frankfurt am Main, Alemanha, com a tese Theologie und Kirche: Erik Petersons Program ‘konkreter Theologie’. É doutor em Filosofia, pelo Boston College, com a teseAmor intellectualis? Leone Ebreo (Judah Abravanel) and the intelligibility of love. É diretor da Revista Portuguesa de Filosofia desde 2000, e leciona Filosofia da Religião e História do Pensamento Contemporâneo na UCP, na Faculdade de Filosofia. Entre inúmeras outras atividades, foi diretor do Centro de Estudos Filosóficos dessa Faculdade (2001-2007), e é, atualmente, o diretor do Programa Integrado de Mestrado e Doutorado em Filosofia da Religião na UCP. É também membro do conselho científico das Revistas Síntese, de Belo Horizonte, Brasil, ePensamiento, de Madrid. Esteve recentemente no Brasil, ocasião em que foi conferencista plenário com o tema A religião e a dinâmica de sua manifestação: A oração como tema da fenomenologia no II Congresso Brasileiro de Filosofia da Religião, realizado na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUCMG) e na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, de 5 a 8 de novembro.

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Entrevista com João Vila-Chã: A fúria do ateísmo contemporâneo tem cariz quase religioso

IHU On-Line - Quais são suas maiores objeções aos atuais profetas do ateísmo: Dawkins, Daniel Dennet , Sam Harris ?
João Vila-Chã -
A minha maior objeção a estes autores tem a ver com o oportunismo da sua atitude, a qual, para mim, consiste sobretudo em tratar o problema de Deus como se este fosse um problema de Ciência (empírica, entenda-se), quando na realidade se trata de um problema teológico e filosófico. Por outras palavras, a minha crítica vai no sentido de dizer que estes autores, por melhores cientistas que sejam, ou possam ter sido, não fazem mais do que usar as credenciais que, obviamente, têm, para espalhar, em alguns casos de forma extremamente militante e “religiosa”, a sua visão ateísta do mundo. Para mim, o problema maior não é o ateísmo destes autores; é, isso sim, a militância com que o promovem, baseados não em pura e rigorosa argumentação, mas no coligir, por vezes de forma muito estranha, meias-verdades, ou até puras não-verdades, para espalhar, com o vento das suas credenciais no campo da ciência, uma doutrina sem fundamento e, sobretudo, sem verdade.

IHU On-Line - A substituição do fundamentalismo religioso pelo fundamentalismo ateísta seria a principal fragilidade teórica desses autores?
João Vila-Chã -
Sim, estou de acordo que, em grande medida, o que estes autores fazem é substituir o funda¬mentalismo religioso por um, não menos militante, fundamentalismo ateu. Penso, de fato, que o fundamentalismo, religioso ou ateu, é profundamente problemático, isso porque se trata de uma posição insustentável teoricamente, que se auto-contradiz. Para mim, fundamentalista é todo aquele/a que pela sua atitude e posição passa necessariamente de uma hiper-afirmação do seu “objeto” a uma pura e simples negação do mesmo. Ou seja, o ateísmo militante e fundamentalista é uma contradição nos termos, pois luta, e isso militantemente, contra uma realidade que, segundo diz, é não existente. Logo, se o seu objeto é não existente, então também é não existente a razão de ser da sua militância. Na verdade, o ateu, se o é de verdade, não pode senão afirmar o objeto da sua negação, ou seja, Deus. O ateísmo militante desses autores, portanto, parece-me uma causa perdida e sem sentido, pois, quixotescamente, lutam contra algo que dizem não existir…

IHU On-Line - Quais são os riscos e as oportunidades que se descortinam em destronar Deus e em seu lugar colocar o homem?
João Vila-Chã -
Todas as posições que, ao longo da historia, quiseram destronar a Deus para colocar em seu lugar o Homem – pensemos, por exemplo, para não irmos mais longe, no comunismo e no nazismo – acabaram, na prática efetiva da História, por destruir, milhões de vezes, a humanidade – e a dignidade – mesma do ser humano. Por isso, com razão falava Henri de Lubac da “tragédia do Humanismo sem Deus”, ou seja, do Humanismo Ateu. É que Deus não é, nem nunca pode ser, o inimigo ou o concorrente do ser humano. Pelo contrário, Deus é a instância de sentido que permite com que o ser humano mais e melhor descubra e experimente a grandeza e a profundidade da sua mesma Humanidade. Por outras palavras, sem Deus o homem não é, nem pode ser, verdadeiramente Homem; sem Deus, ele será sempre menos que si próprio, um ser-em-deficiência. Com Deus, porém, o ser humano encontra a raiz da sua própria autenticidade, da verdade mais profunda do seu ser. Nesse sentido, diria que negar Deus é, no fundo, negar a própria humanidade do ser humano. A “morte de Deus”, se fabricada pelo Homem, não pode senão redundar na própria “morte do Homem”. A prová-lo estão as grandes tragédias do século XX, um século que como nenhum outro se quis ateísta e que, na realidade, deixou atrás de si um rasto ensangüentado pelas vidas roubadas de dezenas e dezenas de milhões de vidas humanas sacrificadas no altar dos negadores de Deus. Aliás, como dizia Dostoiévski, se Deus não existe, então tudo deve ser permitido… até mesmo a negação da nossa própria humanidade. Por isso, acrescento: promover o ateísmo é um contra-senso, é correr um risco sumamente grande e perigoso; o homem sem Deus, tendencialmente, transforma-se num verdadeiro agressor e violentador da sua própria natureza. Não há maior erro do que pensar que o ateísmo é uma posição libertadora; não o é, a não ser que o digamos em relação às paixões mais baixas e sanguinárias do ser humano. O ateísmo é perigoso; por experiência, sabemos que, muito mais do que a “religião”, o ateísmo mata…

IHU On-Line - O que essa fúria anti-religiosa demonstra sobre a racionalidade contemporânea? A razão do ser humano contemporâneo exacerbou-se a ponto de torná-lo cego às manifestações do divino que o cercam?
João Vila-Chã -
A fúria do ateísmo contemporâneo não é só anti-religiosa; como disse antes, o ateísmo militante com que hoje nos confrontamos tem um cariz quase religioso. Evidentemente, ao falar aqui de “religião”, estou a usar o termo em sentido figurado. Neste caso, oponho religião e fé, tal como o fazia Dietrich Bonhoeffer no seu tempo. Acreditar em Deus, no sentido cristão do termo, é confiar em Alguém; é, portanto, literalmente, um ato de Fé. E, nesse sentido, a Fé não se opõe à razão. Acreditar em Deus – tal como acreditar em qualquer outro alguém – não implica uma suspensão da razão; quem acredita em Deus leva a razão aos seus últimos limites, mas sabe que o seu ato de confiança, embora não possa ser contradito pela razão, está para além, infinitamente para além, da razão. Por isso, digo também que o ateísmo militante não tem a ver com um hiper-uso da razão, mas apenas com um uso deficiente, e incompleto, da faculdade racional que diferencia o ser humano de todos os outros seres da natureza. A pessoa de fé não tem medo do ato inteligente; o crente não é aquele ou aquela que coloca a razão entre parêntesis, mas apenas aquele ou aquela que sabe que a razão não é tudo. A plenitude da vida e do sentido só se alcança num ato trans-racional, numa afirmação que vai para além da instrumentalidade da razão. Ou seja, a razão tem de ser afirmada, em modo pascaliano, enquanto possuidora de dimensões que ela própria, sempre mais, desconhece. O ato de fé, portanto, assenta sobre a razão, mas numa razão estruturalmente aberta, exercida numa autêntica relação de transcendência.

IHU On-Line - Que tensões ainda persistem entre religião e ciência? Como o diálogo entre ambas pode fazer avançar a humanidade?
João Vila-Chã -
As tensões que persistem neste campo são essencialmente derivadas da incompreensão mútua entre ciência e religião. Dada a extraordinária importância da ciência ¬– o aparecimento da ciência moderna e do método experimental, no século XVII, constitui, sem dúvida, um dos acontecimentos mais extraordinários e ricos de conseqüências em toda a história da humanidade – e a não menor importância da religião na vida de milhões e milhões de pessoas em todo o mundo, eu diria que não há na atualidade diálogo mais importante e necessário do que o diálogo entre a religião e a ciência. Mas para que este diálogo possa acontecer duas condições fundamentais são necessárias: 1) Que a ciência respeite a autonomia da religião; 2) Que a religião respeite a autonomia da ciência. Ou seja, o diálogo é imprescindível e absolutamente necessário, mas ele tem de acontecer na base de que a ciência não pode ser instrumentalizada pela religião, e de que a religião precisa ser respeitada pela ciência. Em suma, o diálogo acontecerá e será profícuo sempre que a religião não quiser se confundir com a ciência e sempre que esta não se deixar confundir com a religião. Nesse sentido, a tensão que existe entre ciência e religião pode ser salutar e vantajosa para ambas. O que não se pode aceitar é que da ciência se faça religião, ou que as proposições da religião se transformem em “fundamentos” para a prática da ciência.

IHU On-Line - É preciso racionalizar Deus “entregando-lhe um compasso”, ou fé e razão podem ser conciliadas sem que uma adentre o território da outra?
João Vila-Chã -
A meu ver, o que é preciso é entender que só uma razão aberta à diferença e à complexidade pode ser capaz de articular a questão de Deus. Mas Deus não é, como dizia Karl Rahner , nem pode ser, uma fórmula científica. Deus é um mistério que quanto mais se conhece mais se tem de desejar conhecer. Deus nunca pode, por isso, ser considerado como um “objeto” do nosso conhecimento. Deus é a esfera envolvente, o de-onde e o para-onde (Rahner) de toda a nossa capacidade de inteligibilidade e de ação. Assim, com um entendimento adequado da realidade a que damos o nome “Deus”, podemos dizer que a fé e a razão se interpenetram: quanto mais racional, mais apto para a fé; quanto mais crente, mais disposto para o trabalho efetivo da razão.

IHU On-Line - Ainda persiste o embate entre o desígnio inteligente, o acaso e a evolução como explicações para a origem da vida. A que posicionamento o senhor mais se inclina e por quê?
João Vila-Chã -
Sim, este é um debate que continua a afetar enormemente o processo das relações entre ciência e religião. Pessoalmente, não tenho qualquer problema em aceitar a Teoria da Evolução como modelo explicativo das diversas formas de vida. Cientificamente, hoje não restam grandes dúvidas acerca da intuição científica de Charles Darwin. Mais dificuldade tenho em aceitar as teorias do caos como explicação para a origem da vida. Para mim o ponto crucial é este: como explicar que da desordem tenha surgido a ordem, de que a vida é suprema manifestação? Como é que do menos organizado surge o mais organizado? Nesse sentido, a teoria da evolução, por si só, é insuficiente. Concordo que, cientificamente falando, não podemos, para além da miríade de explica¬ções existentes, dizer muito mais do que aquilo que a teoria da evolução nos oferece. A questão das origens, portanto, é muito mais do que uma questão de ciência; ela é uma questão metafísica por excelência. E, metafisicamente falando, não me parece ser possível dizer algo sobre a origem da vida que não passe, necessariamente, pela afirmação de um Ser Absoluto, pura Inteligência, criador de tudo quanto existe e, portanto, explicação última para o fato de que, contra todas as probabilidades, há ser, há vida…

IHU On-Line - Qual é a validade de usar argumentos que consideram a religião como manifestação de infantilidade ou projeção antropocêntrica para desqualificá-la?
João Vila-Chã -
As objeções de autores como Ludwig Feuerbach, Karl Marx , Friedrich Nietzsche ou Sigmund Freud contra a religião são potentes e profundas. Mas não conseguem nunca, a meu ver, desqualificar a religião, considerando-a como uma mera projeção do ser humano. De fato, se a religião não fosse mais do que uma manifestação de infantilismo, por que razão haveríamos nós de estar aqui, neste momento, a dialogar sobre a mesma? A meu ver, a religião não é apenas uma projeção que o ser humano faz de si mesmo, ainda que também o possa ser; a religião é, sobretudo, a expressão de uma dimensão incontornável do ser humano, a saber, a dimensão constituída pela sua permanente busca de Sentido – sentido do mundo, sentido da vida, sentido de si mesmo. A questão do Sentido afeta a ciência, mas não pode ser respondida pela ciência apenas; a questão é do domínio do saber, não do cálculo. Por isso, a religião, tanto como a Filosofia, tem necessariamente de permanecer como uma esfera aberta, como uma instância de diálogo e, sobretudo, de busca permanente. O fundamento da religião, portanto, é a busca do sentido. E esta, enquanto existirem seres humanos sobre a Terra, será uma questão que transcende todas as questões a que a ciência possa responder. Portanto, enquanto houver seres humanos sobre a Terra, haverá sempre religião

Fonte: http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_tema_capa&Itemid=23&task=detalhe&id=836

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