sábado, agosto 01, 2009

A falta que faz um pouco de marxismo à encíclica do papa


A nova encíclica de Bento XVI "Caritas in Veritate", de 7.7.2009, é uma tomada de posição da Igreja face à crise atual. O complexo das crises que atingem a humanidade demandaria um texto profético, carregado de urgência. Mas não é isso que recebemos, senão uma longa reflexão sobre problemas atuais e projeções sobre um governo mundial.O gênero não é profético, o que suporia "uma análise concreta de uma situação concreta". Isso possibilitaria investir contra os problemas em tela na forma de denúncia-anúncio. Mas não é da natureza desse papa ser profeta. Ele é um doutor e um mestre. Elabora o discurso oficial do magistério, cuja perspectiva não é de baixo, da vida real, mas de cima, da doutrina ortodoxa, que esfuma as contradições e minimaliza os conflitos. A tônica dominante não é a da análise, mas da ética, do dever ser.
Como não faz análise da realidade atual, o discurso magisterial permanece principista, equilibrista, e se define por sua indefinição. O subtexto do texto, ou o não-dito no dito, remete a uma inocência teórica que inconscientemente assume a ideologia funcional da sociedade dominante. Já se nota na abordagem do tema central - o desenvolvimento, tão criticado por não tomar em conta os limites ecológicos da Terra. Disso a encíclica não fala. A visão é de que o sistema mundial se apresenta fundamentalmente correto. O que existe são disfunções, e não contradições. Esse diagnóstico sugere terapia semelhante à do G-20: retificações, e não mudanças; melhorias, e não troca de paradigmas; reformas, e não libertações. É o imperativo do mestre: "correção", não a do profeta: "conversão".
Ao lermos o texto, longo e pesado, terminamos por pensar: como faria bem ao papa um pouco de marxismo! Este, ao partir dos oprimidos, tem o mérito de desmascarar as oposições presentes no sistema atual, pôr à luz os conflitos de poder e denunciar a voracidade da sociedade de mercado, competitiva, consumista e injusta. Ela representa um pecado social e estrutural que sacrifica milhões no altar da produção. Isso caberia ao papa denunciar. Mas não o faz.O texto do magistério, olimpicamente fora e acima da situação conflitiva atual, não é ideologicamente "neutro"como pretende. É um discurso reprodutor do sistema imperante. Não é questão de Bento XVI querer ou não querer, mas da lógica estrutural desse tipo de discurso. Por renunciar a uma análise crítica séria, paga um preço alto em ineficácia teórica e prática. Não inova, repete.E aí perde uma enorme oportunidade de se dirigir à humanidade num momento dramático da história, a partir do capital simbólico de transformação e esperança contido na mensagem cristã. O papa não valoriza o novo céu e a nova Terra, que podem ser antecipados pelas práticas humanas, apenas conhece essa vida decadente e insustentável (seu pessimismo cultural) e a vida eterna e o céu que virão.
Afasta-se da mensagem bíblica de consequências políticas revolucionárias ao afirmar que a utopia terminal do reino da justiça, do amor e da liberdade só será real na medida em que se construírem e anteciparem, nos limites do espaço e do tempo histórico, tais bens entre nós.Curiosamente, quando se "esquece" do tom magisterial, na parte final da encíclica, introduz coisas sensatas como a reforma da ONU, a nova arquitetura econômico-financeira internacional, o conceito do bem comum do globo e a inclusão relacional da família humana.
Parafraseando Nietzsche, "quanto de análise crítica o magistério da Igreja é capaz de incorporar"?Leonardo Boff, no site O Tempo [via Filosofia Primeira]

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