terça-feira, fevereiro 10, 2009

'Se Obama fosse Papa'. Artigo de Hans Küng


'Se Obama fosse Papa'. Artigo de Hans Küng

O teólogo Hans Küng, presidente da Fundação Ética Mundial, em artigo para o jornal La Repubblica, 07-02-2009, analisa os contrastes entre as posições o presidente recém eleito dos EUA, Barack Obama, e do papa Bento XVI. No artigo, Küng oferece algumas respostas à sua própria pergunta: "O que faria um Papa se agisse no espírito de Obama?". A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o artigo.
O Presidente Barack Obama conseguiu, em um curto período de tempo, retirar os Estados Unidos de um clima de desânimo e contra-reformas, apresentando uma visão de esperança e introduzindo uma mudança estratégica na política interna e externa desse grande país.
Na Igreja Católica as coisas são diferentes. O ambiente é opressivo, a pilha de reformas é paralisante. Após quase quatro anos no cargo, muitas pessoas veem o Papa Bento XVI como outro George W. Bush. Não foi nenhuma coincidência que o Papa celebrou o seu 81º aniversário na Casa Branca. Tanto Bush quanto Ratzinger não conseguem aprender nada em matérias de controle de natalidade e aborto, não são propensos a implementar quaisquer reformas sérias, são arrogantes e sem transparência na forma como exercem os seus cargos, restringindo liberdades e direitos humanos.

Como Bush no seu tempo, o Papa Bento também sofre de uma crescente falta de confiança. Muitos católicos já não esperam nada dele. Pior ainda, com a retirada da excomunhão de quatro bispos tradicionalistas que foram consagrados ilegalmente, incluindo um que notoriamente nega o Holocausto, Ratzinger confirmou todos os receios que surgiram quando foi eleito Papa. O Papa favorece pessoas que ainda rejeitam a liberdade de religião afirmada pelo Vaticano II, o diálogo com outras igrejas, a reconciliação com o Judaísmo, uma elevada estima pelo Islã e outras religiões mundiais e a reforma da liturgia.

Com o objetivo de promover a “reconciliação” com um pequeno grupo de tradicionalistas arquirreaccionários, o Papa arrisca perder a confiança de milhões de católicos em todo o mundo, que continuam a ser leais ao Vaticano II. O fato de ser um Papa alemão que está dando passos em falso acentua o conflito. As desculpas após o ocorrido não conseguirão juntar as peças.
O Papa teria um trabalho mais fácil do que o Presidente dos Estados Unidos ao adotar uma mudança de rumo. Ele não tem ao seu lado nenhum Congresso como corpo legislativo, nem um Supremo Tribunal como judiciário. É o chefe absoluto do Governo, legislador e juiz supremo na Igreja. Se quisesse, poderia autorizar de um dia para o outro a contracepção, permitir o casamento dos padres, tornar possível a ordenação de mulheres e permitir a eucaristia partilhada com as Igrejas Protestantes. O que faria um Papa se agisse no espírito de Obama?
Claramente, tal como Obama, ele afirmaria claramente que a Igreja Católica está em uma crise profunda e identificaria a origem do problema: muitas congregações sem padres, um número ainda insuficiente de novos candidatos ao sacerdócio e um colapso oculto de estruturas pastorais como resultado de fusões impopulares de paróquias, um colapso que muitas vezes se desenvolveu ao longo de séculos.

Proclamaria a visão da esperança de uma Igreja renovada, um ecumenismo revitalizado, um entendimento com os judeus, muçulmanos e outras religiões mundiais e uma avaliação positiva da ciência moderna;
Reuniria ao seu redor os colegas mais competentes, e não os homens e mulheres “sim, senhor”, mas mentes independentes, apoiados por especialistas competentes e destemidos;
Iniciaria imediatamente as medidas reformadoras mais importantes por decreto (“ordem executiva”); e convocaria um concílio ecumênico para promover a mudança de rumo.

Mas que contraste deprimente:
Enquanto o Presidente Obama, com o apoio do mundo inteiro, olha para frente e está aberto às pessoas e ao futuro, esse Papa orienta-se o mais para trás possível, inspirado por um ideal de igreja medieval, céptico sobre a Reforma, ambígua sobre os direitos modernos de liberdade.
Enquanto o Presidente Obama se preocupa com uma nova cooperação com parceiros e aliados, o Papa Bento XVI, tal George W. Bush, está preso em um raciocínio em termos de amigo e inimigo. Ele despreza os co-irmãos cristãos das Igrejas Protestantes ao recusar reconhecer essas comunidades como Igrejas. O diálogo com os Muçulmanos não foi além de uma mera confissão verbal de “diálogo”. As relações com o Judaísmo dizem-se profundamente danificadas.
Enquanto o Presidente Obama irradia a esperança, promove atividades cívicas e convoca uma nova “era de responsabilidade”, o Papa Bento está aprisionado em seus medos e quer limitar a liberdade humana tanto quanto possível, para estabelecer uma “era de restauração”.
Enquanto o Presidente Obama se lançou na ofensiva usando a Constituição e a grande tradição do seu país como base para passos corajosos de reforma, o Papa Bento interpreta os decretos do Concílio da Reforma de 1962 em sentido contrário, tendo em mente o Concílio conservador de 1870.

Mas como, com toda a probabilidade, o Papa Bento XVI não será nenhum Obama, para o futuro imediato precisamos, em primeiro lugar, de um episcopado que não oculte os problemas manifestos da Igreja, mas os aborde abertamente e enfrente-os de forma enérgica em nível diocesano. Também precisamos de teólogos que colaborem ativamente com uma visão de futuro da nossa Igreja e não tenham receio de falar e escrever a verdade. De pastores que oponham as cargas excessivas impostas constantemente pela fusão de muitas paróquias e que assumem corajosamente a responsabilidade como pastores. E, em particular, as mulheres, sem as quais, em muitos lugares, as paróquias entrariam em colapso, para que, com confiança, empreguem as possibilidades da sua influência.

Mas nós podemos realmente fazer isso? Yes, we can.

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