terça-feira, janeiro 27, 2009



‘Há uma restauração em curso na Igreja’. Entrevista com Hans Küng



“Espero tomar uma posição sobre esta polêmica porque estão em jogo problemas de fundo. Quero me preparar para dizer a minha palavra sobre os aspectos cruciais do processo em curso.Porque a questão destes quatro bispos só é possível ver no contexto geral de uma restauração”. Assim o famoso “teólogo rebelde”, o professor alemão Hans Küng comenta a situação da Igreja católica depois do cancelamento da excomunhão ao bispo negacionista Williamson e dos outros bispos da ultraconservadora Fraternidade fundada por Marcel Lefebvre, em entrevista concedida ao jornal La Repubblica, 27-01-2009.


A entrevista é de Andrea Tarquini.


Na Igreja católica alemã prevalecem posições fortemente contrárias à decisão tomada. A teóloga Uta Ranke-Heinemann fala de “responsabilidade vergonhosa”.


Eis a entrevista.
Professor Küng, qual é a importância da revogação da excomunhão dos quatro bispos?


Os significados fundamentais foram propostos pelo processo geral em curso. A questão da revogação da excomunhão dos quatro bispos, segundo minha opinião, sozinha, não é tão importante, mas tem um significado e deve ser vista e enquadrada no contexto geral de restauração.


Qual o significado deste contexto geral e os últimos acontecimentos?


No contexto geral os últimos acontecimentos são um sinal do contínuo enrijecimento do Vaticano, a contínua marcha para trás, a contínua sequência de passo após passo para trás. Penso em tomar uma posição mais clara sobre os acontecimentos neste contexto. Estou refletindo ainda como fazê-lo.


Quanto é preocupante e sério este processo?


É muito preocupante. Mas quero esperar ainda alguns dias para fazer ouvir a minha voz.
Mas quanto ao caso Williamson, fiéis e a opinião pública ainda estão chocados. O que o senhor pensa?


Williamson é somente um aspecto do contexto geral. Não o único. Por mais que o antisemitismo seja nojento, o conjunto do desenvolvimento em curso é muito mais carregado de conseqüências. Estamos falando de pessoas que não ainda não subscreveram a declaração sobre a liberdade religiosa e o decreto sobre os judeus (documentos do Concílio Vaticano II, nota da redação)
Ou seja, o problema não somente a polêmica cristãos-judeus, mas as idéias de fundo da Igreja sobre o seu lugar no mundo moderno?


Sim. A questão é o conjunto do curso que o Papa Ratzinger desencadeou na Igreja. Sem dúvida, um percurso que volta, significativamente, para trás.
Isso também diz respeito ao Papa Wojtyla?


Sim. Certamente, Papa Wojtyla soube evitar alguns erros, e sabia falar melhor às pessoas. E foi ele que excomungou os bispos de Lefebvre. Eis um outro exemplo de um passo para trás. Em geral, a vontade de reconciliação com os membros da Fraternidade Sacerdotal Pio X pode ser avaliada positivamente. Mas, insisto, mas não está ainda claro que estes bispos reconhecem o Concílio Vaticano II ou que respeitam o decreto sobre a liberdade religiosa.


O Papa vive verdadeiramente no mundo moderno, ele entende os fiéis?


O Pontífice vive no seu mundo. Ele se afastou dos homens e, além de grandes procissões e pomposas cerimônias, não enxerga mais os problemas dos fiéis. Por exemplo, a moral sexual, a cura pessoal das almas, a contracepção. A Igreja está em crise. Espero que ele reconheça isso. Serei feliz se der passos de reconciliação também na direção dos ambientes dos fiéis progressistas, Mas Bento não está vendo que está alienando a si mesmo de grande parte da Igreja católica e da cristandade. Não vê o mundo real. Somente vê o mundo vaticano.

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