sexta-feira, janeiro 16, 2009

Darwin, o plágio


Darwin, o plágio

Quem entre Darwin e Wallace foi o primeiro a formular a famosa teoria sobre a origem das espécies? Essa é uma falsa pergunta, segundo Piergiorgio Odifreddi, em artigo publicado no jornal La Repubblica, 07-01-2009, porque, na realidade, tratou-se apenas de uma “impressionante coincidência”. Segundo Odifreddi, os dois cientistas desenvolveram, no mesmo período de tempo, estudos paralelos. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o artigo.

Apenas teve início o ano darwiniano, que celebra o bicentenário de nascimento de Charles Darwin e o 150º aniversário da publicação da sua obra-prima, "A Origem das Espécies". E mesmo antes do início das comemorações já começaram os fogos comemorativos ininterruptos dos “estraga-festas”, que provavelmente durarão todo o 2009: por exemplo, como foi publicado no jornal La Repubblica do dia 29 de dezembro, daqueles que a recém inventaram um possível “plágio” de Darwin em dano de Alfred Russell Wallace.

Trata-se, obviamente, de uma daquelas fraudes que tanto agradam àqueles sobre os quais a estátua do Comendador canta na ópera Don Giovanni de Mozart: “Não se nutre de alimento celeste [da ciência] quem se nutre de alimento moral [das fofocas]”. É bem notável, de fato, que Wallace chegou independentemente à formulação da teoria da evolução, mas aceitou de bom grado a prioridade de Darwin e se contentou sempre da honra da partilha: inclusive foi ele mesmo quem cunhou o termo Darwinismo, em um livro homônimo de 1889. Por outra parte, seria, porém, redutivo descrever Wallace como "O homem que colocou Darwin em pânico", segundo o título da completa e fascinante antologia de seus escritos publicada por Federico Focher (Editora Bollati Boringhieri, 2006). Essas mesmas páginas mostram, de fato, que há muito mais na vida e nas obras de Wallace, além da (re)descoberta da teoria da evolução, e vale a pena descobrir o quê.

Os dois eventos cruciais na sua formação foram o encontro com Henry Bates e a leitura de Malthus. No início, porém, só o primeiro teve um efeito imediato: os dois amigos, inspirados, entre outras coisas, pela leitura da "Viagem de um naturalista ao redor do mundo", de Darwin, organizaram, de fato, uma expedição à Amazônia a ser financiada com a coleta de exemplares raros de insetos e borboletas para serem vendidos aos colecionadores. E partiram de Liverpool no dia 20 de abril de 1848 para aportar um mês depois em Belém. Depois de alguns meses de coabitação, os dois se separam. Bates se dedicou ao Rio Amazonas, permanecendo 11 anos. Wallace se dedicou, pelo contrário, ao Rio Negro e voltou depois de quatro anos: mas sem exemplares, porque o navio naufragou, e ele perdeu tudo, exceto suas memórias, que foram publicadas em 1853 em "Viagens pelo Amazonas e Rio Negro".

Apesar de, nos dez dias à deriva e nos setenta da viagem de volta, ele se prometesse não reembarcar nunca mais, dois anos depois ele estava de novo de partida: desta vez, para o arquipélago da Malásia, onde permaneceu por oito anos, e foi ali que ele encontrou gradualmente a porta de saída do problema da origem das espécies, que já antes de partir para a Amazônia ele havia identificado, em uma carta a Bates, como uma das descobertas da sua primeira viagem.
O primeiro passo foi completado no artigo de 1855, "Sobre a lei que regulou a introdução de novas espécies", no qual enunciou a chamada lei de Sarawak (do nome da província em que Wallace foi hóspede do “rajá branco” James Brooke, que inspirou o personagem homônimo da série de Sandokan de Emilio Salgari): “toda espécie teve uma origem coincidente, seja no espaço como no tempo, com uma espécie preexistente extremamente afim”, e, portanto, “a sucessão natural das afinidades representa também a ordem segunda a qual as várias espécies vieram à luz”.

Particularmente, segundo a metáfora da árvore da vida que teria sido usada também por Darwin, “criou-se uma complicada ramificação das linhas de afinidade, tão intrincada quanto os raminhos de um carvalho nodoso ou o sistema vascular do corpo humano”.
A clareza das ideias de Wallace e a sua persuasão das suas argumentações fizeram vacilar a posição fixista do grande geólogo Charles Lyell, mas não foram suficientes para fazer com que Darwin lhe revelasse o fato de já haver encontrado a solução do enigma: ainda em janeiro de 1858, Wallace escreveu, de fato, a Bates, afirmando que “a grande obra que Darwin está preparando, e para a qual recolhe material há vinte anos, poderia economizar-me a fadiga de acrescentar outras coisas à minha hipótese, ou poderia me causar problemas chegando à outra conclusão”.

Um mês depois, em fevereiro de 1858, Wallace resolveu o problema sozinho, em um momento de iluminação ocorrido durante um ataque de febre, calafrios e ondas de calor que o obrigam a ficar de cama por horas. Impossibilitado de fazer outra coisa a não ser pensar, veio-lhe à memória o "Ensaio sobre o princípio da população", de Malthus, que havia lido cerca de 20 anos antes, e intuiu que as mesmas causas que limitam o crescimento da população humana agem em continuação também no mundo animal. Perguntou-se por que alguns morrem enquanto outros vivem, e a resposta foi obviamente que, no complexo, sobrevivem os melhor adaptados. Nessa mesma tarde, logo depois de a febre baixar, Wallace escreveu o famoso artigo "Sobre a tendência das variedades de se diferenciarem indefinidamente do tipo original". Dois anos depois, enviou-o a Darwin, que o recebeu no dia 18 de junho de 1858 e encontrou exposta ali uma teoria idêntica à sua.
Darwin enviou o artigo de Wallace a Lyell, falando de uma “coincidência impressionante” com o seu trabalho, do qual “não seria possível fazer um resumo melhor”. Para a sua sorte, em setembro de 1857, ele havia escrito uma longa carta ao botânico Asa Gray, expondo-lhe os pontos salientes das suas pesquisas, e Lyell propôs publicá-la junto ao artigo de Wallace: os dois trabalhos foram apresentados à Sociedade Linnea no dia 1º de julho de 1858, o mesmo dia em que Darwin enterrava o filho Charles, morto de escarlatina aos 18 meses.

Longe de gritar pelo “plágio”, Wallace aceitou de bom grado a situação e reconheceu que, no fundo, só “um caso de sorte” permitira-lhe partilhar oficialmente com Darwin uma ideia à qual havia dedicado respectivamente “uma semana contra 20 anos”. E voltou ao seu interesse principal, que era a biogeografia, publicando, no verão de 1859, o artigo "Zoogeografia do arquipélago malaio", em que identificava o limite que separa as regiões zoológicas australianas e indianas, apesar de sua identidade climática e geológica substancial. Em seguida, estenderá sua atenção ao globo como um todo, em pesquisas compendiadas na sua obra principal, "A distribuição geográfica dos animais", de 1876.

Um artigo de 1869 sobre "Os limites da seleção natural aplicada ao homem", porém, permanece ofuscando a sua fama científica, em que Wallace defende que “uma inteligência superior guiou o desenvolvimento do homem em uma direção bem precisa e para um objetivo especial, exatamente como o homem governa o desenvolvimento de muitas formas animais e vegetais”. Darwin ficou horrorizado com isso e lhe escreveu: “Se não me tivesses dito, pensaria que essa frase houvesse sido acrescentada por alguma outra pessoa”, comentando: “Espero que não tenhas assassinado totalmente a tua e a minha criatura”.

Na realidade, Wallace fez ainda pior, assumindo abertamente posições em favor do espiritismo e dos fenômenos paranormais e escrevendo, em 1885, um panfleto em que acusava a vacinação de ser “inútil e danosa”. Apesar dos seus deslizes irracionalistas, ele nunca chegou, porém, ao ponto de apreciar a religião e permaneceu sempre um defensor do socialismo ideal e da nacionalização da terra, dedicando ao compromisso social uma parte considerável da sua longa, aventurosa e intensa vida.

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