segunda-feira, janeiro 19, 2009

‘Assim renasci cristão’. Entrevista com René Girard


‘Assim renasci cristão’. Entrevista com René Girard

René Girard, em entrevista a Grant Kaplan, no jornal dos bispos italianos Avvenire, 04-01-2009, se diz um "cristão permanente". Segundo ele, o desafio da Igreja é "alcançar os jovens". "Isso explica por que João Paulo II era tão importante", afirma. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Muitas vezes, defendeu-se que o senhor se deparou com o cristianismo durante as suas pesquisas, mas a verdade é um pouco diferente.

Sim, é verdade. A história é diferente do momento em que eu já era cristão por parte de mãe, uma mulher muito fiel e bastante “sofisticada” no seu modo de sê-lo, especialmente para o tempo em que viveu. Meu pai, ao contrário, era moderadamente anticlerical. Essa situação era muito típica na classe média francesa. Mia mãe, no início, não me influenciou muito. Dos 12 aos 30 anos, sempre que podia eu evitava a missa dominical. Mas é falso pensar que eu me deparei por acaso com o cristianismo. Na minha infância havia diversos elementos cristãos que eram – que são – muito potentes, e a influência da minha mãe também foi importante. Por isso, as pesquisas realizadas para "Deceit, Desire and the Novel" foram um renascimento do meu cristianismo e se tratou de algo muito comprometedor. As experiências da infância podem ser muito importantes. Quanto mais reflito, melhor entendo que você tem razão ao sugerir que a minha história se desenrolou assim.

A Igreja nos Estados Unidos, e, em um certo sentido, menos na Europa ocidental, parece tristemente dividida entre os que se autodefinem tradicionalistas e os que se chamam de progressistas. Não se ignorando essas distinções superficiais, de que modo o senhor conseguiu não se alinhar com um “grupo” dentro da Igreja?

É uma pergunta complicada. Penso que haja pouca diferença entre a Europa e os Estados Unidos, ou menos do que você insinua.
A questão sobre a divisão entre progressistas e tradicionalistas dominou o debate por muitos anos. Hoje, o vejo como um pouco “dépassé” e não relevante da forma como é usado.
Parece que o grande entusiasmo progressista do Concílio tenha diminuído e se tornado menos importante. Eu acho que a pergunta verdadeira é se alguém permanece cristão ou não. Estou inclinado a não me sentir um cristão do passado, mas um cristão “permanente”. Por um certo período, fui visto como um conservador extremo, porque sentia que o cristianismo progressista daquele período estava imitando, se pode-se dizer assim, os debates que não são, por si mesmos, religiosos... debates da vida política e da ação social, que são interessantes, mas não fundamentais para o cristianismo. No meu modo de ver, o questionamento é se alguém crê ou não na encarnação e na divindade de Cristo. Lentamente, estamos nos voltando a esse ponto.

Visto que o senhor é francês, mas também reside nos Estados Unidos, acha que a Igreja norte-americana está se fechando dentro de seus próprios muros?

Historicamente, isso foi verdade para a Igreja francesa, que se fazia chamar de "Igreja galesa", para enfatizar a própria independência do papado. De um ponto de vista francês, a Igreja norte-americana é muito mais preocupada com a sua relação com o papado e com o seu desejo de ser “ortodoxa”, isto é, de não fazer afirmações estranhas a uma perspectiva cristã. Da perspectiva de qualquer pessoa de fora, a Igreja norte-americana é extremamente generosa nas suas doações. Nisso certamente há algo do processo do bode expiatório, mas isso não me impressiona como um fenômeno particularmente americano. A tendência a criticar o papado era muito difundida na França. Por exemplo, durante a Primeira Guerra Mundial, as pessoas não estavam conscientes do que ocorria com Bento XV (e acho que Bento XVI tomou esse nome justamente por causa disso).

Bento XV era muito popular durante a guerra, apesar de ser impopular na França por ser muito pró-Alemanha, e o mesmo na Alemanha, porque era exageradamente pró-França. Fez esforços muito notáveis para pôr fim aos combates. Interveio e fez o melhor que pôde para promover as negociações. Ninguém apreciou esse esforço, como se fosse um dever fazê-lo. Foi verdadeiramente profético ao entender que a guerra era um desastre de proporções enormes para toda a Europa.

O que o senhor responderia se o Papa lhe perguntasse o que deveria fazer para melhor levar adianta a obra de catequese na Igreja?

A Igreja é consciente disso e continuamente se interroga sobre o que deve fazer para melhorar. Certamente, é necessário alcançar os jovens. Isso explica por que João Paulo II era tão importante. A simpatia misteriosa que os jovens tinham por João Paulo II foi notavelmente destacada no momento em que se refletiu sobre o seu papado. Eventos como as Jornadas Mundiais da Juventude são muito importantes. Obviamente não é fácil ter a mesma simpatia de Wojtyla, mas o grande sucesso da visita do papa Ratzinger aos Estados Unidos e a recente viagem à França foram muito importantes. Em Paris, foram 250 mil as pessoas que o escutaram na missa, e 100 mil destas passaram a noite ali. Um evento impressionante. Por isso, as pessoas que pensam que o cristianismo na França já acabou erram completamente, na minha opinião. Por exemplo, quando o cardeal Lustiger era arcebispo de Paris celebrava a missa às 6h30 da manhã todo domingo, em Notre Dame. Se não se chegasse a tempo, era impossível encontrar um lugar para se sentar na igreja. Entre as pessoas de Paris, a sua popularidade era incrível. Esse fenômeno não foi conhecido como se deveria, porque nisso havia algo de muito paradoxal. Lustiger não era um parisiense doc, mas um judeu, e bispo de Orleans antes de chegar a Paris. A sua popularidade foi algo de verdadeiramente inédita.

O senhor considera o seu trabalho um empenho apologético?

Penso que o aspecto mais influente do meu trabalho seja mostrar que o judaísmo e o cristianismo existem em continuidade com as religiões arcaicas. Fundamentalmente, eu sou um antropólogo e um racionalista. O que defendo é o fato de que as sociedades humanas são muito diferentes daquelas que os especialistas definem como “sociedades animais”, porque as primeiras têm a religião. Na sociedade arcaica, religião e cultura são absolutamente um todo, mesmo que isso não aparece. A religião, por isso, é um modo com o qual os seres humanos aprendem, sem ter consciência, o modo no qual se comportar com a violência no interior do próprio grupo. Nesse caso, o sacrifício chega a revestir o papel das vítimas substitutivas. Esse fenômeno deveria ser explicado em termos puramente antropológicos, como algo científico. Não é necessária uma convicção religiosa para entendê-lo. Essa compreensão da religião arcaica (levada adiante também por aqueles que têm uma consideração desfavorável frente à própria religião) representa uma verdadeira revolução. É muito importante mostrar que essas vítimas são absolutamente indispensáveis à sobrevivência do homem.

De um certo modo, o cristianismo é o fim das religiões arcaicas, porque revela que a vítima é inocente. Quando se compreende o cristianismo de maneira correta na sua proximidade-distância da religião arcaica, descobre-se que estamos frente à mesma estrutura, ou seja, o fenômeno do bode expiatório, isto é, Jesus como vítima. Já o texto bíblico é concebido para destruir o esquema do bode expiatório em vez de usá-lo para realizar sacrifícios. A relação com todas as religiões arcaicas no passado é tão central e racional, ao ponto de que se poderia ir para trás em dezenas de milhares de anos. Esse é um dado importante. A religião da Encarnação deveria ser uma antropologia assim como uma teologia. A Encarnação significa homem e Deus juntos. A teologia é o Deus puro e é construída sobre esquemas que ignoram completamente aquilo que, no cristianismo, chamamos de Encarnação.

Em nível pessoal, o senhor tem alguma sugestão para tornar a fé atraente frente aos não-crentes?

Uma coisa importante seria mostrar que o cristianismo tem algo a dizer a respeito das ciências do homem. Isso é absolutamente indispensável. A antropologia sempre viu a religião como um tipo de história. No século XIX, Auguste Comte sentia que a religião arcaica era a primeira tentativa de se entender os “mistérios do universo”. Em outras palavras, empreendiam o mesmo percurso da ciência. Mas, segundo Comte, tratava-se de uma ciência muito decadente e não de alto nível. Para os positivistas do século XIX, a filosofia ficava no meio do caminho, era um pouco melhor do que a teologia, mas ainda não aceitável como a ciência. Essa visão era muito abstrata e tinha pouco a ver com o fato de que a religião é um fenômeno muito concreto que leva as pessoas a evitar matarem-se totalmente umas às outras.

Qual papel o senhor acredita que as principais teses do seu trabalho intelectual terão nas próximas décadas?

Considero que a questão e o paradoxo do bode expiatório (porque isso existe quando não se vê e está ausente quando se diz que está presente) serão melhor compreendidos e assumirão um papel que nunca apareceu na apologética. A visão do cristianismo não é muito paradoxal. Eu acho que, quando se lê Kierkegaard com atenção, vê-se que ele não estava muito distante de muitas das afirmações que a teoria do bode expiatório pode formular de maneira mais racional. Por isso, essa visão pode ser um instrumento de apologética que ainda não foi descoberto.
Fonte: Unisinos

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