segunda-feira, novembro 03, 2008

Um filósofo volta a lançar a aposta do Papa: viver como se Deus existisse

Um filósofo volta a lançar a aposta do Papa: viver como se Deus existisse




Saiu à venda nestes dias, na Itália, depois de ter sido publicado na Alemanha, um livro realmente importante. Seu autor é um filósofo cristão de primeira magnitude, Robert Spaemann.
A reportagem é de Sandro Magister, publicada em seu sítio Chiesa, 31-10-2008. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Tem por título “El rumor inmortal” [O rumor imortal], no original alemão “Das unsterbliche Gerücht”. Um título que o autor explica assim:
“Que exista um ser que, na nossa língua, se chama ‘Deus’ é um velho rumor que não se chega a chamar de silêncio. Esse ser não forma parte do que existe no mundo. Deveria ser, mais do que nada, a causa e a origem do universo. Mas forma parte do rumor, tanto que no mundo mesmo há rastros dessa origem e referências àquele. E essa é a única razão pela qual se pode ter afirmações tão diversas sobre Deus”.
O livro, editado na Itália por Cantagalli, é o primeiro de uma coleção que leva por título, e não por casualidade, “Como se Deus fosse real”.
Viver “como se Deus fosse real” – creia-se ou não nEle – é a proposta paradoxal lançada por Bento XVI à cultura e aos homens de hoje.
Joseph Ratzinger formulou essa proposta pela primeira vez, como filósofo mais do que como teólogo, no memorável discurso pronunciado por ele em Subiaco, no dia 1º de abril de 2005, sua última conferência pública antes de ser elevado ao Papado.
Ratzinger a expôs desse modo:
“Na época do iluminismo, tentou-se entender e definir as normas morais essenciais, dizendo que elas seriam válidas ‘etsi Deus non daretur’, inclusive no caso de que Deus não existisse. Na contraposição das confissões de fé e na crise subseqüente da imagem de Deus se tentou manter os valores essenciais da moral fora das contradições e de buscar para eles uma evidência que as fizesse independentes das múltiplas divisões e incertezas das diferentes filosofias e confissões de fé. Com isso, buscava-se assegurar as bases da convivência e, mais em geral, as bases da humanidade. Nessa época, isso parecia possível, enquanto as grandes convicções de fundo criadas pelo cristianismo resistiam em grande parte e pareciam inegáveis. Mas já não é mais assim. A busca de uma tal certeza garantidora, que pudesse conservar-se incontestável além de todas as diferenças, fracassou. Nem sequer o esforço, verdadeiramente grandioso, de Kant esteve em condições de criar a necessária certeza compartilhada. Kant tinha negado que Deus pudesse ser cognoscível no âmbito da razão pura, mas ao mesmo tempo tinha apresentado a Deus, a liberdade e a imortalidade como postulados da razão prática, sem a qual propunha, de forma coerente, que para ele não era possível nenhum agir moral. A situação atual do mundo nos faz pensar novamente que, talvez, ele poderia ter razão? Quero dizê-lo com outras palavras: a tentativa, levada ao extremo, de formas as coisas humanas, deixando Deus completamente de lado, nos conduz paulatinamente à beira do abismo, ao abandono total do homem. Por conseqüência, devemos inverter o axioma dos iluministas e dizer: também que não chega a encontrar o caminho da aceitação de Deus deveria buscar viver e orientar sua vida ‘veluti si Deus daretur’, como se Deus existisse. Esse é o conselho que já Pascal dava aos amigos não-crentes, e é o conselho que queremos dar também hoje a nossos amigos que não crêem. Desse modo, ninguém se encontra limitado em sua liberdade, mas todas as nossas coisas encontram um sustento e um critério do qual temos necessidade urgente”.
Lido com esse fundo, o livro de Spaemann consegue ser ainda mais cativante.
A seguir, transcreve-se uma amostra, formada por fragmentos concatenados, tomados das páginas 24 a 42 da edição italiana.
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“Com a derrubada da idéia de Deus derruba-se também a idéia de um mundo verdadeiro”
por Robert Spaemann
A história dos argumentos a favor da existência de Deus é enorme. Sempre houve homens que buscaram assegurar-se da racionabilidade de sua fé. [...] As clássicas provas da existência de Deus buscavam mostrar que é verdade que Deus existe. Pressupunham que a verdade existe e que o mundo possui estruturas compreensíveis, acessíveis ao pensamento. Essas estruturas encontravam seu fundamento na origem divina do mundo. São diretamente acessíveis a nós e por isso são aptas para nos conduzir a esse fundamento.
Essa suposição é questionada a partir de Hume e, sobretudo, por Nietzsche. [...] Toda a obra de Nietzsche pode ser lida como uma paráfrase da expressão lapidar de Hume: “We never really advance a step beyond ourselves”, nunca avançamos realmente um passo além de nós mesmos [...].Nietzsche afirma que “também nós, os iluministas, nós, espíritos livres do século XIX, tomamos ainda nossos fogo da fé cristã – que era também a fé de Platão –, segundo a qual Deus é a verdade, e a verdade é divina”. Mas precisamente para Nietzsche, esse pensamento é uma auto-ilusão, já que, para ele, a verdade não existe, mas somente há reações úteis ou daninhas. “Não devemos nos enganar e pensar que o mundo nos mostra um rosto legível”, dizem Michel Foucault e Richard Rorty. [...] Com a derrubada da idéia de Deus, derruba-se também a idéia de um mundo verdadeiro [...].
O neopragmatista Rorty substitui o conhecimento com a esperança em um mundo melhor, onde não se pode nem sequer dizer mais no que deveria consistir essa esperança. [...] É uma conseqüência disso que Rorty também não acolhe mais como uma acusação de falar em modo obscuro e contraditório. Com efeito, no âmbito de um pensamento que não se sente já obrigado à verdade senão ao êxito, já não se pode dizer claramente em que deveria consistir tal êxito. Pensamentos obscuros podem ser mais eficazes que os pensamentos claros. A nova situação se caracteriza pelo fato de que decidimos “uno actu”, de nossa própria vontade, se temos que pensar um absoluto, se temos que pensar esse absoluto como Deus, se temos que reconhecer algo como uma verdade não relativa a nós mesmos; e, por último, se temos que nos sentir autorizados a nos considerar como seres capazes da verdade, isto é, pessoas. [...]
Em Nietzsche, a “via moderna”, isto é, o nominalismo, se cumpre e adquire completa consciência de si mesmo. [...] Por isso, nessa situação, os argumentos para pensar o absoluto como Deus podem ser somente argumentos “ad hominem”. [...] Se não o queremos, não há nenhum argumento que possa nos convencer da existência de Deus. [...]
Com a depreciação do pensamento da verdade, deprecia-se também o pensamento da realidade. Nosso dizer e pensar o que é está estruturado de forma inevitavelmente temporal. Não podemos pensar algo como real sem pensá-lo no presente, isto é, como real “agora”. Jamais houve e jamais haverá algo que haja sido sempre somente passado ou que será somente futuro. O que é agora, em um tempo, era futuro e, em seu momento, será passado. O “futurum exactum”, o futuro anterior, é inseparável do presente. Falar de um acontecimento do presente que no futuro não será mais significa falar que, na realidade, não é nem sequer agora. Nesse sentido, todo o real é eterno. Não poderá haver um momento em que não será mais verdadeiro que alguém experimentou uma dor ou uma alegria que experimenta agora mesmo. E essa realidade passada prescinde absolutamente do fato de que nos lembremos dela.
Mas qual é o status ontológico desse converter-se em passado, se todos os rastros serão apagados, se o universo não existirá mais? O passado é sempre passado de um presente, então o que será do passado se não haverá nenhum presente? Por conseqüência, a inevitabilidade do “futurum exactum” implica a inevitabilidade de pensar um “lugar” onde tudo o que acontece se conserva para sempre. De outro modo, devemos aceitar o pensamento absurdo de que o que agora é, um dia, não terá mais sido e, por conseqüência, não é real nem sequer agora mesmo, que é um pensamento que somente o budismo tende a sustentar. A conseqüência do budismo é a negação integral da vida.
Nietzsche refletiu, como ninguém antes dele, sobre as conseqüências do ateísmo, não com a intenção de percorrer o caminho da negação integral da vida, mas da afirmação da vida. [...] A conseqüência mais catastrófica que ele extraiu foi a de que lhe pareceu que o homem perdia aquilo a que sua auto-transcendência tende. Com efeito, Nietzsche considerou como a maior aquisição do cristianismo o ter ensinado a amar o homem por amor a Deus: “o sentimento até agora mais nobre e elevado alcançado entre os homens”. O super-homem e a idéia de um eterno retorno deviam fazer as vezes de substituto da idéia de Deus. Justamente, Nietzsche via claramente que o rosto da terra havia sido determinado de outro modo no futuro: os “últimos homens”, que crêem ter inventado a felicidade e debocham do “amor”, da “criação”, da “nostalgia” e da “estrela”. Ocupados somente em manipular a própria luxúria, consideram loucos a todos os dissidentes que levem a sério algo, como por exemplo, a “verdade”.
Como ele mesmo temia, o heróico niilismo de Nietzsche demonstrou-se impotente frente aos “últimos homens”. [...] O niilismo banal do último homem é difundido hoje, entre outros, por Richard Rorty. O homem que, além da idéia de Deus, deixou de lado também a verdade, agora conhece unicamente os próprios estados subjetivos. Seu vínculo com a realidade não é representativo, mas somente causal. Quer conceber a si mesmo como uma besta astuta. Para uma besta do gênero não se dá conhecimento de Deus. [...]
Mas se queremos pensar o real como real, devemos pensar em Deus. “Temo que não nos libertaremos de Deus enquanto creiamos na gramática”, escreve Nietzsche. Também poderia ter agregado: “... até que sigamos pensando-nos como reais”. Um argumento “ad hominem”.
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O livro: Robert Spaemann, “La diceria immortale”, Cantagalli, Siena, 2008, pp. 200, 20 euros.

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