segunda-feira, novembro 03, 2008

‘A origem do mundo? Nós a explicaremos’. Discurso de Stephen Hawking

‘A origem do mundo? Nós a explicaremos’. Discurso de Stephen Hawking





Segue abaixo um trecho do discurso do físico britânico Stephen Hawking, proferido ontem no Vaticano sobre o tema “Evolução do universo e da vida”, publicado no jornal italiano Corriere della Sera, 01-11-2008. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
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Os primeiros relatos da origem do mundo eram tentativas de responder às perguntas que nós todos nos colocávamos: por que estamos aqui? De onde viemos? Todavia, a idéia de que o universo teve um início não agradava a todos. Por exemplo, Aristóteles, o mais famoso dentre os filósofos gregos, acreditava que o universo sempre existiu. De fato, qualquer coisa eterna é mais perfeita de qualquer coisa que tenha sido criada.


A expansão do universo foi uma das descobertas mais importantes do século XX, na realidade de todos os séculos, e transformou o debate sobre o fato de o universo ter ou não um início: de fato, se atualmente as galáxias estão se separando, vê-se que, no passado, eram mais próximas entre elas.


Muitos cientistas, pelo contrário, não estavam de acordo sobre fato de o universo ter tido um início, porque isso parecia subentender um fracasso da física. Para entender como o universo nasceu se deveria recorrer a um agente externo. Esses mesmos cientistas, no entanto, avançaram em teorias para as quais o universo se expandia sim no presente, mas não teve um início. Dois russos, Lifshitz e Khalatnikov afirmaram realmente ter demonstrado que, em densidade infinita, uma contração geral sem uma simetria exata sempre provocaria um ricocheteio. Esse resultado era muito conveniente para o materialismo dialético marxista-leninista, porque evitava perguntas incômodas sobre a criação do universo. Tornou-se, porém, um dogma para os cientistas soviéticos.


Quando Lifshitz e Khalatnikov publicaram sua afirmação, eu era um estudante de 20 anos na pesquisa de qualquer coisa para completar a tese de doutorado. Do momento em que não acreditou nas suas chamadas provas, iniciei, com Roger Penrose, a desenvolver novas técnicas matemáticas para estudar a questão. Juntos, demonstramos que era impossível que o universo ricocheteasse. Se a Teoria Geral da Relatividade de Einstein está correta, haverá uma singularidade, um ponto de densidade e de curvatura espaço-temporal infinitas onde o tempo tem um começo.


Nesse último século, fizemos progressos enormes na cosmologia. A Teoria Geral da Relatividade e a descoberta da expansão do universo quebrou em pedaços a velha imagem de um universo que sempre existiu e que sempre existirá. A relatividade geral, pelo contrário, previa que o universo, e o tempo mesmo, tiveram início com o Big Bang. Previa, além disso, que o tempo teria fim nos buracos negros. A descoberta das microondas cósmicas de fundo e as observações dos buracos negros sustentam essas conclusões.


Embora tenha se dado passos de gigante, nem tudo foi resolvido. Ainda não temos uma boa compreensão, em nível teórico, das observações que demonstram que a expansão do universo tenha recomeçado a acelerar, depois de um longo período de desaceleração. Sem tal compreensão, não poderemos estar seguros do futuro do universo. Continuará a se expandir para sempre?


A inflação é uma lei da natureza? O universo está destinado a sofrer um novo colapso? Novos resultados baseados sobre a observação e progressos teóricos estão chegando rapidamente. A cosmologia é uma matéria muito entusiasta e ativa. Estamos sempre mais próximos de responder às perguntas de sempre: “Por que estamos aqui?”, “De onde viemos?”. Eu acredito que essas perguntas podem encontrar suas respostas dentro do campo da ciência.

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