segunda-feira, novembro 17, 2008

O Evangelho de João como o livro da identidade e coesão cristã

O Evangelho de João como o livro da identidade e coesão cristã. Entrevista especial com Johan Konings



Nesta semana de oração pela unidade dos cristãos, a IHU On-Line entrevistou o teólogo Johan Konings, por e-mail, sobre o Evangelho de São João. Em suas respostas, ele afirma: “o Quarto Evangelho insiste fortemente na identidade e coesão da comunidade, em torno de Jesus, sendo animada pelo mesmo Espírito de Deus que é o de Jesus”.


Nesta semana de oração pela unidade dos cristãos, a IHU On-Line entrevistou o teólogo Johan Konings, por e-mail, sobre o Evangelho de São João. Em suas respostas, ele afirma: “o Quarto Evangelho insiste fortemente na identidade e coesão da comunidade, em torno de Jesus, sendo animada pelo mesmo Espírito de Deus que é o de Jesus”. Para ele, “o escrito parece oferecer uma série de catequeses para introduzir ou confirmar os membros da comunidade no mistério da presença de Deus em Jesus, tanto na sua obra terrestre como na sua presença gloriosa que se inicia por seu gesto de amor divino na cruz”. E Konings acrescenta: “O Evangelho de João é intelectualmente libertador”, ao falar sobre sua contribuição ao diálogo inter-religioso.
Johan Konings é professor no Instituto Santo Inácio - Centro de Estudos Superiores da Companhia de Jesus – ISI- CES, de Belo Horizonte, MG. Graduado em Filosofia e Teologia, Konings concluiu o doutorado em Teologia pela Universidade Católica de Louvaina. Entre seus livros publicados, citamos Ser cristão – Fé e prática (Petrópolis: Vozes, 2003) e Liturgia Dominical. Mistério de Cristo e formação dos fiéis (anos A – B – C) (Petrópolis: Vozes, 2003).
Esta página publica, semanalmente, sempre às segundas-feiras, um comentário do evangelho que será lido, no domingo seguinte, nas celebrações litúrgicas da Igreja Católica. Para ler o comentário de amanhã, domingo da Ascensão do Senhor, clique aqui.



Confira a entrevista.



IHU On-Line - Quais são as principais características do Evangelho de João ou da comunidade joânica e para quem ele foi escrito?



Johan Konings - O Quarto Evangelho parece ser o “livro da comunidade” que o apóstolo deixou à comunidade. Conforme a tradição antiqüíssima, contra a qual não há objeções científicas sólidas, esse apóstolo era João. Essa tradição pode ser acolhida como altamente provável, assim como a origem apostólica do Evangelho. Com isso, não se diz nada sobre o autor literário, o escritor. Pela mesma tradição, sabe-se que o escrito surgiu tardiamente, no fim do primeiro século de nossa era, sendo, dentre os quatro evangelhos, aquele do qual temos os documentos mais antigos, datados do segundo século. Desse modo, as circunstâncias de sua composição podem ser imaginadas com bastante probabilidade. Aquilo que, depois de prolongada pregação em diversos lugares e circunstâncias, está conservado no atual escrito parece refletir uma comunidade que viveu a dolorosa separação da sinagoga judaica. Esta, depois da destruição do Templo, em 70 d.C., procurou reforçar sua coesão e excluiu os cristãos, considerados maus judeus. Ao mesmo tempo, se fizeram sentir as perseguições da parte do Império Romano. Assim, o Quarto Evangelho insiste fortemente na identidade e coesão da comunidade, em torno de Jesus, sendo animada pelo mesmo Espírito de Deus que é o de Jesus. O escrito parece oferecer uma série de catequeses para introduzir ou confirmar os membros da comunidade no mistério da presença de Deus em Jesus, tanto na sua obra terrestre como na sua presença gloriosa que se inicia por seu gesto de amor divino na cruz.



IHU On-Line - Neste ano, da Páscoa até a festa de Pentecostes, exceto no terceiro domingo, a Igreja propõe como evangelho dominical passagens do Evangelho de João. Qual o motivo dessa escolha? Johan Konings - Como a noite pascal era, antigamente, a noite do batismo, as “catequeses mistagógicas” de João servem por excelência tanto para preparar a noite pascal quanto para continuar e aprofundar seu mistério nos domingos que se seguem à Páscoa.



IHU On-Line - Como podemos relacionar a festa de Pentecostes com o Quarto Evangelho?
Johan Konings - Embora João não mencione o Pentecostes judaico entre as diversas festas que evoca, seu Evangelho induz bem o sentido cristão desta festa, que é o dom do Espírito Santo. Pois este é mencionado como dom do Cristo glorificado em diversas partes do Evangelho (por exemplo, em 7,37-39) e amplamente descrito como Paráclito ou “defensor no processo”, nos capítulos 14 e 16.



IHU On-Line - No capítulo 17 de João, encontramos a oração sacerdotal na qual Jesus reza pela unidade de seus irmãos e irmãs: "para que todos sejam um, como tu, Pai, estás em mim e eu em ti. E para que também eles estejam em nós, a fim de que o mundo acredite que tu me enviaste" (21). Quais são as implicações dessa oração para o diálogo ecumênico?



Johan Konings - O Evangelho de João é o livro da identidade e coesão cristã, que se manifestam no amor fraterno: “Nisto todos reconhecerão que sois meus discípulos” (13,35). Esta mensagem constitui também o cerne do cap. 17, que encerra as palavras de despedida de Jesus. Se o amor fraterno ao modelo do amor de Cristo, e integrado no amor de Cristo e do Pai, for levado a sério, os cristãos não podem ser senão unidos em comunhão. A divisão é o sinal de sua infidelidade.



IHU On-Line - Como essa oração pela unidade pode nos inspirar nesta semana de oração pela unidade dos cristãos, que tem como lema neste ano 2008: "Rezai sem cessar?".



Johan Konings - O “rezar” aponta para a expressão, diante de Deus, de nossa fé e esperança. Esta deve constantemente estar voltada para a comunhão com Cristo e os irmãos, e certamente essa orientação constante de nossa preocupação, sob o olhar de Deus, provocará atitudes e ações de superação das divisões históricas que, muitas vezes intelectualmente já superadas, ainda dividem os que procuram viver do mesmo espírito.



IHU On-Line - Que contribuições podemos encontrar nesse Evangelho para o diálogo inter-religioso?



Johan Konings - O Evangelho de João é intelectualmente libertador. Fala a linguagem da mistagogia, da penetração do mistério de Deus que, conforme o Prólogo 1,18, “ninguém jamais viu”, mas que se deu a conhecer na “Palavra” de amor e fidelidade que é Jesus em pessoa, amando-nos até o fim, ou seja, com um amor que revela que “Deus é amor” – como diz a Primeira Carta de João. O evangelho de João não fixa nossa mente em dogmas e conceitos, mas na manifestação do rosto de Deus em Jesus de Nazaré. Dizer isso, com toda a simplicidade e sem dogmatismo, é a maior contribuição que podemos dar ao diálogo inter-religioso.
Leia mais sobre Johan Konings



- Veja uma entrevista na 103ª edição da IHU On-Line, de 31 de maio de 2004, sobre o Simpósio Internacional O Lugar da Teologia na Universidade do Século XXI, evento no qual ministrou a oficina "Hermenêutica e Teologia no século XXI". O texto desta oficina abriu a publicação Cadernos de Teologia Pública, do IHU.
- Confira outra entrevista concedida por Konings na IHU On-Line número 114, de 6 de setembro de 2004, sobre Rudolf Bultmann.

Nenhum comentário: