terça-feira, novembro 04, 2008

Atirem no pai do evolucionismo


Atirem no pai do evolucionismo

Tachado de “muito democrático”, salpicado pelos ciúmes, ridicularizado como macaco, o naturalista inglês – que terá um duplo aniversário em 2009 – teve adversários de todo o calibre e tamanho, mas ninguém conseguiu ofuscar sua contribuição ao conhecimento da evolução humana.

A reportagem é de Pablo Capanna, do jornal argentino Página/12, 02-11-2008. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Um dos episódios mais célebres da história da ciência, ou, melhor, de certa literatura quase-escolar que todos conhecemos, é aquela célebre cena de 1860, na qual o bispo de Oxford enfrenta Thomas Huxley em um debate público sobre a evolução. Nela, não faltam argumentos contundentes e a frase célebre de Huxley, “prefiro descender de um símio antes que de um obtuso como o senhor”, nem a aclamação pública que consagra o triunfo do evolucionismo.
A cena tem a mesma exemplaridade que a maça de Newton, a banheira de Arquimedes ou a torre de Pisa, mas como a maioria das figurinhas é religiosa, patriótica ou ideológica, é muito exemplar para ser certa. Quem assumiu o trabalho de rastrear os fatos nos documentos e testemunhos da época foi nada menos do que Stephen Jay Gould, uma das grandes figuras científicas do último século, a quem ninguém seria capaz de ver como um inimigo de Darwin.
Posto que os vitorianos tinham o costume de deixar tudo por escrito, não foi difícil para ele reconstruir o que ocorreu nessa tarde na Associação Britânica para o Avanço da Ciência. Gould descobriu que a briga de fundo entre S. Wilberforce (apelido “o Escorregadio”) e T. H. Huxley (apelido “o Bulldog”) teve por apresentador o químico John William Draper, autor de um famoso livro sobre o conflito entre ciência e religião.

Alinhado junto ao bispo, interveio, com particular rancor, o almirante Fitz Roy, o capitão do barco Beagle, com o qual Darwin havia dado a volta ao mundo. O bispo Wilberforce teve como empresário o paleontólogo Richard Owen, que há começava a ser inimigo jurado de Darwin e Huxley.

No entanto, nem Owen nem Wilberforce eram “fixistas”, mas “transformistas”. Admitiam a evolução, mas a viam, como Goethe, como a “transformação” de umas espécies em outras. O que não aceitavam era a seleção natural. Nem Huxley nem Darwin usavam a palavra “evolução”, que ainda era patrimônio do filósofo Spencer. Darwin só chegou a falar de evolução depois de várias edições de sua obra. Spencer, por sua parte, não deixou de reclamar para si a paternidade da idéia, que usava quase como sinônimo de “progresso”.

Uma das surpresas que Gould teve foi que a maioria das testemunhas, e o próprio bispo, tinham ficado convencidos de que Wilberforce era o ganhador. Na versão canônica do conflito ciência-religião, aparecia humilhado por Huxley, que também não era ateu, mesmo que sim um decidido anticlerical.

Anos mais tarde, Huxley também ganhou a briga de revanche, quando enfrentou diretamente Richard Owen, o técnico do bispo. Nocauteou-o quando conseguiu demonstrar que o gorila também tinha a área do cérebro chamada hippocampus minor. Owen tinha proclamado que, por esse detalhe anatômico, o homem se distinguia dos animais.

Paleontólogos e aficionados
A trajetória científica de Owen foi relevante e se poderia dizer que teve algumas grandes conquistas. Entre outras coisas, foi ele quem deu nome aos dinossauros que Mantell acabava de descobrir. Mas sua ética deixava bastante a desejar, e sua honestidade acadêmica tinha muitos pontos obscuros.

Quando Darwin acabava de chegar de sua viagem, o geólogo Lyell havia lhe apresentado Owen, e juntos haviam trabalhado sobre os megatérios sul-americanos. Pelo que parece, a inveja que Owen sentiu pelo êxito de Darwin o impulsionou a escrever um artigo anônimo na Edinburgh Review, onde não apenas ensinava com “A origem das espécies”, mas também aproveitava para elogiar a si mesmo. Owen ensinava ciências naturais aos filhos da rainha Vitória, e essa condição não deixava de pesar no debate.

Outro grande adversário da seleção natural era o geólogo Adam Sedgwick, que antes havia sido professor de Darwin. Sedgwick também não defendia a imutabilidade das espécies, mas acusava Darwin de não seguir estritamente o método indutivo.

Em geral, se poderia dizer que Darwin tinha mais adversários científicos do que eclesiásticos. Ele estava mudando um paradigma, e isso sempre gera resistência. A escola inglesa de Teologia Natural, que os criacionistas costumam opor ao darwinismo, era muito anterior a tudo isso. O próprio Darwin contava que, em sua juventude, havia lido Paley “com grande prazer”.

O estilo das polêmicas em torno a Darwin protagonizadas pelo “bulldog” Huxley foi muito mais político do que científico. Porém, Darwin manteve-se sempre à margem. Na polêmica, as questões de poder e prestígio estavam encobertas pelos argumentos racionais. O jornal Punch se encheu de caricaturas de Darwin caracterizado como um macaco, e houve invectivas contra ele no Parlamento.

A rejeição ao evolucionismo não veio só dos eclesiásticos. Também proveio de outros setores da sociedade, incluindo os anticlericais (entre os quais estaria o Nobel de Literatura George Bernard Shaw) e os anticristãos, como a teósofa Blavatsky. O próprio Nietzsche, cujas precárias noções de darwinismo talvez tenham vindo dos livros de Haeckel, repudiou a seleção natural em “A vontade de poder”. Pensava que era muito democrática: permitia que os medíocres sobrevivessem, em lugar de cuidar dos potenciais amos.

George Bernard Shaw
O autor de “Pigmalião”, a obra que é mais conhecida pelo musical “Minha Bela Dama”, era muito sensível às modas ideológicas de seu tempo. O irlandês já havia aproveitado a fama de Nietzsche para titular “Homem e super-homem” (1905) a uma obra teatral que evocava Don Giovanni Tenório e discorria sobre a “força vital”. O drama começava no estúdio de um professor, ostensivamente decorado com um busto de Spencer e um retrato de Huxley.

Depois da guerra mundial, Shaw havia se tornado socialista. A desmesurada introdução que escreveu para “Volta a Matusalém” (1922), foi precisamente o desenvolvimento dos temas de uma conferência que ele deu na Sociedade Fabiana. Shaw censurava no darwinismo todas as “catástrofes políticas”: anomia, revoluções e guerras. O enfrentamento de ciência e religião teria gerado essas catástrofes, deixando os europeus inermes ante “bandidos e canalhas”. Pode-se dizer que bandidos e canalhas não faltaram, mas não foi por culpa de Darwin.

É bastante estranho encontrar uma ardorosa defesa do lamarckismo nesse enorme prólogo escrito para uma obra teatral. Shaw estava empenhado em mostrar que, antes de Darwin, muitos haviam falado da evolução: era algo rigorosamente certo, pois entre eles estava Erasmus, o avô de Darwin. Mas Shaw diminui a importância da “seleção circunstancial” e da herança, que são precisamente as contribuições específicas de Darwin e Wallace.

Shaw propunha uma Evolução Criadora (tomando a fórmula do filósofo Bergson) e aspirava superar a crise criando novos mitos que satisfizessem tanto as necessidades religiosas como a visão científica.

O mandril de Madame Blavatsky
Entre aqueles que propunham novos mitos, mas os buscavam no Oriente, estavam os teósofos. No verão de 1873, Madame Helena Blavatsky e o coronel Olcott fundaram a Sociedade Teosófica em um aparamento de Nova Iorque. A bizarra decoração costumava chamar a atenção dos cronistas da época. Além das imagens religiosas índias e chinesas, havia uma grande quantidade de animais dissecados. Entre todos os lagartos, cobras e corujas, sobressaía um mandril [grande macaco (Mandrillus sphinx), encontrado nas florestas úmidas do Oeste africano, de cauda curta, pelagem esverdeada e machos de focinho vivamente colorido de vermelho e azul] embalsamado, com o qual qualquer um se deparava ao entrar.

O símio em questão tinha óculos, colarinho e gravata. Tinha sob o braço as anotações para uma conferência sobre “A origem das espécies” que estava a ponto de pronunciar. Para que não restassem dúvidas, um rótulo o identificava como “o professor Fiske”. Era uma caricatura de John Fiske, então conhecido como o mais entusiasta divulgador do darwinismo nos Estados Unidos. Para a profetisa russa, o bufão representava “a Loucura da Ciência, oposta à Sabedoria da Religião”.

No caso, não se tratava de nenhuma das grandes religiões históricas, mas de uma construção: a Teosofia. A vidente se empenhava em qualificá-la como filosofia, mas a deixava repousar nas revelações pessoais que seus mistérios mestres tibetanos lhe ditavam. Blavatsky usava um método indutivo muito peculiar e suas críticas a Darwin se baseavam nas visões do homem primitivo que os médiuns espíritas lhe ofereciam.

A profetisa russa não deixava de se proclamar “evolucionista”, mas condenava Darwin como “transformista ateu e materialista”. À seleção natural, ela opunha a “filosofia cabalística”. Darwin só havia visto uma parte, a ascensão do inferior ao superior. Em troca, sua visão da evolução era degenerativa: as primeiras espécies haviam sido imateriais e foram perdendo suas faculdades mais altas à medida em que se contaminavam com o mundo material.

Na fictícia história natural que Blavatsky construiu em seus tratados “Isis sem véus” e “A Doutrina Secreta”, a humanidade era apenas uma das sete “espécies radiculares”, a primeira das quais havia convivido com os dinossauros, há 150 milhões de anos. Cada espécie se dividia em sete subespécies, que contavam com sete clãs cada uma.

Tinham habitado nos continentes desaparecidos (Hiperbórea, Lemúria, Atlântida) e haviam sido criados pelos demiurgos que vivem na Lua. Para Blavatsky, os mitos não mentiam: os continentes emergiam e se fundiam, a Terra havia tido várias luas antes que a atual e tinha visto passar dragões e gigantes.

Super-homem e racismo
Apesar do que Darwin e Wallace disseram, o homem seria superado por novas espécies de super-homens. Era um esquema que ia servir de base a todo o esoterismo popular do século XX. Os arqueólogos nazistas da Ahnenerbe andaram buscando as provas.

As repercussões que a polêmica do darwinismo havia provocado haviam sido devastadoras na cultura. Assim como Copérnico havia tirado a Terra do centro do cosmos, nas polêmicas o darwinismo não aparecia como um chamado à modéstia para a nossa espécie, mas como a radical humilhação da dignidade humana. O homem deixava de ser um privilegiado, dotado por Deus de um suplemente de espírito.

Para alguns, seu parentesco com os símios e demais animais parecia justificar a guerra e o racismo. Assim como o militarismo prussiano se sentia legitimado pela lei da selva e pelo direito do mais forte, os eugenistas acreditavam que podiam discriminar para se distinguir definitivamente dos animais.

Madame Helena dava um peculiar giro ao contrário. Rejeitava igualmente a Bíblia e Darwin, considerando-os ambos materialistas, mas divinizava aos homens originários, que em cada etapa evolutiva foram degenerando um pouco mais. Só nas estirpes mais puras se conservava a centelha divina que as “raças degeneradas” haviam perdido. A raça superior não havia sido criada por Deus, era divina. Só as inferiores eram de origem animal. Podiam ser bem explicadas pela seleção darwiniana, sempre que a superior ficasse a salvo.

Deve-se lembrar que isso não era a crença de um pequeno grupo esotérico. Se Blavatsky dizia ter lutado junto com Garibaldi, os teósofos tiveram ativa intervenção na independência da Índia e no renascimento celta. Antes de que o marxismo (que sim adotou uma marca decididamente darwiniano) se convertesse em ideologia dominante, a Teosofia atraiu e formou homens de ciência como Crookes e Edison. Influenciou especialmente artistas como Gauguin, Mondrian, Kandinsky, Xul Solar, Klee, Skriabin, Yeats, Meyrink, Joyce; até em Aldous Huxley, que era neto do bulldog darwiniano.

Uma das piores criações que a cultura européia produziu nessa etapa foi sem dúvida o racismo, ao qual é difícil atribuir uma paternidade definida, além dos nomes que todos conhecemos. Houve um racismo eugenista, que iniciava diretamente com Galton e um racismo político que vinha de Haeckel, ambos vinculados a Darwin.

Mas o pior de todos (talvez porque tratou os europeus como eles costumavam tratar os povos submetidos) foi o nazismo, que se nutriu de ambas as vertentes, tanto do que então parecia ser um dogma científico, como das variantes esotéricas criadas pela Teosofia.
O que poderia ter sido uma discussão racional em torno a temas científicos se converteu em ideologia e até em ferramenta para acumular, exercer e abusar do poder.

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