segunda-feira, setembro 08, 2008

O retorno de Deus



O retorno de Deus

Quando se registra um “retorno do ateísmo” em publicações, assinadas em geral por cultores de ciências e difundidas em nível internacional nestes últimos anos, também se deve registrar o “retorno de Deus” em numerosas outras publicações, tanto teológicas como para o grande público. A Editora Queriniana, da Itália, está publicando um livro de Manfred Lutz intitulado “Deus. Uma pequena história do Maior”[Una piccola storia del più Grande], publicada na Alemanha em outubro de 2007, que se pode considerar o best-seller da mais qualificada literatura religiosa de 2007 em campo internacional, prontamente editado pela Queriniana.
Rosino Gibellini, teólogo italiano, reproduz, trechos da introdução do livro, na página eletrônica da Etidora Queriniana, 04-09-2008


Eis o texto.


De que queremos falar na era do dissipador gossip [fofocar] televisivo e do “diz-se” de nossa cotidianidade? O psiquiatra alemão Manfred Lutz propõe falar de Deus na língua da cotidianidade. E escolhe assim o mais alto tema que se possa propor. A imprensa alemã saudou o livro com estes títulos: “O retorno de Deus”; “De novo na ordem do dia: a questão sobre Deus”.
Manfred Lutz é psiquiatra e escritor de bestseller, como o seu Lebenslust [Prazer de viver] (2005), com o qual propõe fazer redescobrir a leitores e leitoras o “Prazer da vida” numa época em que muitos(as) estão aterrorizados(as) pelas dietas, e na qual se pratica o culto do fitness. Como psiquiatra e psicoterapeuta, Lutz não pertence nem à escola freudiana, nem à jungiana, mas antes à psicoterapia que se orienta em Erikscon e em Binswanger, e que pratica uma psicoterapia pragmática, breve e direcionada, que não necessita de grandes teorias para ativar uma cura capaz de sanar. É o humanismo psicoterapêutico, que muitos gostariam de encontrar na vida. Mas, o psiquiatra e psicoterapeuta de 54 anos, que ocupa a cátedra num hospital de Colônia e é conhecido pelo grande público pelos seus livros e por suas intervenções públicas, é também teólogo por estudos e publicações.


O tema proposto é empenhativo e urgente por um déficit, amplamente difuso, de conhecimentos históricos, filosóficos e teológicos; por isso está escrito na língua da cotidianidade, compreensível a todos, mas simultaneamente com soltura lingüística e com a perícia do escritor de sucesso. Este seu livro, que apareceu em língua alemã no outono de 2007, esteve por meses na lista dos bestseller do Spiegel: a centésima milésima cópia foi oferecida numa audiência ao Papa Bento em fevereiro de 2008. O tema remete a uma vastíssima biblioteca na qual o autor sabe mover-se muito bem, chegando, de vez em quando, a um ponto essencial, justificado e proponível. O psiquiatra é um espírito livre e não se deixa atemorizar por nenhuma auctoritas científica ou filosófica, percorrendo a história da busca de Deus, mas também a história do ateísmo, cuja figura mais emblemática continua sendo o ateísmo de Nietzsche, pela radicalidade de sua formulação e pela consciência de suas conseqüências niilistas: “Crer em Deus ou seguir Nietzsche parece ser a verdadeira alternativa”.


O livro está escrito “terra a terra” para tornar compreensível a cada leitor e leitora o grande tema proposto. Basta prestar atenção aos títulos e subtítulos, nos quais se articula a narração e que são escolhidos simultaneamente com cuidado e espontaneidade. Somente alguns exemplos. O autor introduz a história que quer contar com as palavras do monólogo de Hamlet: “Ser ou não ser”, e sobre a dolente coluna sonora de Elton John na morte da princesa Lady Diana, para aludir à colocação em jogo da história que está para iniciar, quase para dizer: vai-se pela orientação da vida; um motivo que depois retorna com freqüência nas páginas do livro. Para indicar a passagem epocal do politeísmo para uma forma de monoteísmo solar, introduzido no Egito pelo Faraó Amenofis IV, o autor põe o título “O mistério de uma bela mulher”, com referência à graça erótica da esposa Nefertite, cujo retrato feminil, “o mais antigo e o mais belo de todos os tempos”, é admirado no museu egípcio de Berlim. Na ilustração da “surpreendente” resposta cristã à história da busca de Deus – onde se assiste à desarticulação da história: Deus à procura do homem – se faz referência às discussões cristológicas dos primeiros séculos, não só entre os doutos, mas também entre o povo e nos “tumultos entre açougueiros e padeiros” na capital cultural da época, Alexandria do Egito. E é precisamente isto que pretendia o psiquiatra teólogo: relatar a questão de Deus e do sentido da vida nas discussões de todos os dias, fornecendo na língua de todos os dias os dados essenciais do problema e de sua história.


O livro propõe “uma pequena história”, embora seja uma história de séculos e milênios, não só porque pretende ir ao essencial, mas também para sublinhar que o tema proposto está sempre além de toda narração e argumentação, enquanto propõe a história “do Maior”, que pode ser assumido como outro nome de Deus, menos conotado sob o perfil filosófico e teológico. Nesta nuance se evidencia o esforço do Autor de atingir cada leitor e leitora.


O discurso, iniciado com as noites (pagãs) de Elton John, se conclui com as noites de Bach, que “traduziu o cristianismo em música”, sem esquecer Mozart “que soube exprimir de maneira marcante toda a plena vontade da vida terrena e toda a esperança indestrutível numa vida eterna junto a Deus”. Encontramos aqui uma característica do livro, que se ajusta ao grande tema e se desenvolve com constante referência à arte e à música, expressão da “sensualidade da verdade”, como chave para abrir espaços para “o Maior”.

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