terça-feira, setembro 30, 2008

João Adolfo Hansen: Grande sertão: veredas: “uma máquina de moer ideologias”


Guimarães Rosa “é um ator dotado de uma consciência antropológica finíssima e que, ao tratar de seus tipos sertanejos, evita falar por eles e sobre eles, como tinha feito toda a ficção regionalista anterior a ele.” A definição é de João Adolfo Hansen, professor de Literatura da Universidade de São Paulo (USP). Em sua obra, Rosa trata o sertão como um local quem tem historicidade própria, “o faz falar, mas não lhe concede exclusividade, pois também representa o seu outro, a cidade, que o propõe como objeto”, explica. Nessa mescla de realidades, as falas sertaneja analfabeta e a urbana letrada se encontram, “sem que nenhuma delas prevaleça, o que produz vazios quando as representações de uma e outra se chocam e se anulam reciprocamente”. O diálogo entre esses dois mundos, segundo Hansen, “indeterminam as versões sertanejas e as versões citadinas sobre o sertão, impedindo que sua identidade se fixe como ‘identidade brasileira’”.


Hansen é mestre e doutor em Literatura Brasileira, pela Universidade de São Paulo (USP). Entre seus livros, destacamos O o: a ficção da literatura em Grande sertão: veredas (São Paulo: Hedra, 2000), A sátira do engenho (São Paulo: Ateliê Editorial, 2004) e Alegoria. Construção e interpretação da metáfora (São Paulo: Hedra, 2006).


Confira a seguir, a entrevista concedida à IHU On-Line, por e-mail."



João Adolfo Hansen: Grande sertão: veredas: “uma máquina de moer ideologias”
Por: André Dick e Patricia Fachin, 29/09/2008


IHU On-Line - O senhor tem um estudo sobre Grande sertão: veredas, que lida sobretudo com a linguagem e o universo utilizados por Guimarães. De que modo eles são construídos e por que, na sua visão, permanecem tão atuais, instigando sempre novos debates e estudos?


João Adolfo Hansen - Como Mallarmé e Joyce, Rosa se recusa a escrever numa língua degradada como é a língua instrumental da sociedade de massas. Ao mesmo tempo, ele detesta o racionalismo cartesiano e também não gosta de Aristóteles e Hegel. Vamos dizer, sinteticamente, que ele recusa os padrões da representação clássica e realista, e que passa ao lado do par formalismo/conteudismo que pressupõe justamente a representação. Sua ficção é dupla: é a ficção de uma região, “sertão”, e de seus tipos humanos, mas também é a ficção de uma língua que deve compensar os desgastes ideológicos dos usos da língua liberando as línguas recalcadas na língua. Ele inventa essa língua, que ele dizia ser a “língua que se falou antes de Babel”, por meio de procedimentos técnicos - ele estiliza a oralidade do Centro-Oeste do Brasil, estiliza os padrões da língua portuguesa escrita desde o século XV, inventa neologismos, falsas etimologias, importa estrangeirismos, faz usos inusitados de prefixos e sufixos, recategoriza e reclassifica categorias e classes gramaticais etc. Sobre isso, o livro de Mary Lou Daniel é fundamental. Efetuada por meio de tais procedimentos, a forma de seus textos produz o estranhamento e a indeterminação dos padrões habituais memorizados ou familiares do leitor, que se vê obrigado a ler decifrando seu estilo para preencher os vazios da intelecção. Com isso, Rosa sugere algo que escapa à determinação da forma mediada pela representação e que, para ele, devia dar-se na intuição do leitor, algo que ele chamava de “mel do maravilhoso”, “supra-senso” etc. Sua operação é política, no sentido do “dar um sentido mais puro às palavras da tribo” de Mallarmé, ou seja, no sentido de recusar a moeda corrente das palavras.


IHU On-Line - Existe uma ligação com metafísica, sob o ponto de vista filosófico, nas obras de Guimarães? Como ele visualiza as figuras de Deus e do diabo?


João Adolfo Hansen - Eu diria que ele tem uma metafísica do estilo que, ficcionalmente, aparece como metáfora da metafísica ou estilo da metafísica. Várias vezes, ele demonstra que prefere Platão, Cristo, Plotino, Bergson, Berdyaev, e que detesta Aristóteles, Descartes, Hegel. Ou seja: afirma preferir autores que afirmam a superioridade das formas intuitivas do entendimento contra autores intelectualistas e racionalistas. Com isso, afirma “Deus” e a contra-efetuação de Deus, o diabo, não-ser. Quando figura a experiência dos personagens sertanejos, Deus corresponde à Significação das significações e, diabo, à negação dela. Pensemos, por exemplo, o que acontece com a vida de Nhô Augusto Matraga quando se decide a ir para o Céu mesmo que a porrete. Ao mesmo tempo, Deus/diabo também são metáforas de princípios políticos aplicados à invenção do mundo social dos textos. Por exemplo, em Grande sertão: veredas, Deus fundamenta o imaginário da força no sertão, validando os códigos de honra dos coronéis e seus jagunços; o diabo, no caso, é a força do imaginário (lembremos que Riobaldo faz o pacto com ele para obter o poder para vencer o Hermógenes e seu bando). Também podemos pensar Deus/diabo retoricamente; assim, em Grande sertão: veredas, “Deus” é o interpretante dos sinônimos aplicados como significação da multiplicidade das coisas do sertão; e “diabo”, interpretante dos homônimos ou potência do duplo ou duplicidade da linguagem que Rosa faz proliferar e misturar-se nas designações de coisas, homens e eventos.


IHU On-Line - Em Guimarães Rosa, abre-se um espaço considerável para se abordar a fala (o popular, o oral) e a escrita, como o senhor já observou em seus estudos. Como entende, ligando também aos seus estudos, nesse sentido, a observação do crítico literário português Eduardo Lourenço, que afirma que “Guimarães Rosa desce ao porão do Brasil como língua, descobre-a, e, não por acaso, naquelas Minas sem as quais o Brasil como veio a existir nunca teria se feito nação”.


João Adolfo Hansen - Não sei se o Brasil nunca se teria feito nação sem Minas. Não me lembro se Eduardo Lourenço está se referindo à Inconfidência. Acho que Rosa libera as línguas aprisionadas na língua, fazendo falar o que não fala, dando voz ao que não tem voz, tortas raças de pedras, farfalhar do vento, bois, onças, montanhas e tipos humanos loucos, crianças, aluados, poetas, bêbados etc. que a cultura dominante desqualifica como incompetentes. Sabemos que ele pesquisou os falares do Centro-Oeste, constituindo-os como matéria da estilização artística.


IHU On-Line - Como é possível pensar uma identidade brasileira a partir dos personagens de Guimarães, ou essa identidade é absorvida pela criação literária, que não se prende exatamente a uma manifestação que pode ser vista como sociológica?


João Adolfo Hansen - A questão da identidade brasileira é complexa. Rosa dizia que “Riobaldo é somente Brasil” e, ao mesmo tempo, citando o sublime de Longino e Kant, que a “brasilidade” é a “língua do indizível”. Acredito que ele é um autor dotado de uma consciência antropológica finíssima e que, ao tratar de seus tipos sertanejos, evita falar por eles e sobre eles, como tinha feito toda a ficção regionalista anterior a ele, desde os românticos do século XIX. Nele, o sertão é um outro cultural que tem historicidade própria que passa ao lado dos códigos letrados da civilização do litoral. Quando figura o sertão, Rosa o faz falar, mas não lhe concede exclusividade, pois também representa o seu outro, a cidade, que o propõe como objeto. Assim, nos seus textos, sertão/cidade, analfabeto/alfabeto, oralidade/escrita, mito/Luzes etc. coexistem sem que nenhum dos termos das oposições suplante o outro. Veja, por exemplo, o que acontece no uso que faz do modo épico e dramático no Grande sertão: veredas. Dramaticamente, o texto é o diálogo continuado do sertanejo Riobaldo com o doutor ilustrado da cidade. O doutor está silenciado e suas falas só aparecem citadas na fala de Riobaldo. Esta é uma mescla de duas espécies de falas - a sertaneja analfabeta e a urbana letrada - que determina e avalia, como mescla, o sentido do modo épico, a narração da história. A mescla avalia o que é dito por duas perspectivas simultâneas, sertaneja/urbana, sem que nenhuma delas prevaleça, o que produz vazios quando as representações de uma e outra se chocam e se anulam reciprocamente, “nonada”. Assim, o diálogo e a narração indeterminam as versões sertanejas e as versões citadinas sobre o sertão, impedindo que sua identidade se fixe como “identidade brasileira”. Grande sertão: veredas é uma máquina de moer ideologias, entre elas a ideologia da identidade nacional brasileira.


IHU On-Line - Há uma historicidade evidente nas criações de Rosa, no que se refere ao contexto em que foram criadas?


João Adolfo Hansen - Podemos falar de uma historicidade do ato da invenção de Rosa como um ato que é simultaneamente artístico e social, pressupondo diversos condicionamentos, como o estado da ficção brasileira anterior e contemporânea e, ainda, o estado geral das coisas no Brasil e no mundo no momento em que escreve. Por exemplo, em Primeiras estórias, há referências evidentes ao momento da escrita como o momento da construção de Brasília como projeto de integração do interior do país ao litoral.
Há também a historicidade das matérias sociais citadas, estilizadas e parodiadas por Rosa. Essas matérias são, por exemplo, padrões da linguagem oral do Centro-Oeste, que ele pesquisou. Também matérias sociais literárias, como os romances românticos, realistas e naturalistas brasileiros, a obra de Euclides da Cunha, o modernismo de São Paulo, o romance nordestino de 1930, além da grande literatura universal, de Dante a Thomas Mann, de Marlowe a Goethe, de Homero a Joyce etc. E, ainda, as representações dos ideólogos do Brasil que, à direita e à esquerda, teorizaram a chamada “brasilidade” desde o século XIX. Em Grande sertão: veredas, Rosa os cita pela boca de papel de Riobaldo, geralmente como paródias que os esvaziam.
Além disso, há a historicidade particular do ato da leitura. Em Rosa, esse ato não é o do simples reconhecimento do que as histórias contam, porque a forma do seu estilo é singular e corre paralelamente às fábulas, obrigando o leitor a lê-la de maneira não-usual que incide diretamente sobre a historicidade de seus hábitos perceptivos, chamando sua atenção para o artificial do arbitrário simbólico (o texto é ficção, obviamente) e para os processos de construção da verossimilhança.


IHU On-Line - Como Grande sertão: veredas, por exemplo, dialoga com outras obras, sobretudo estrangeiras?


João Adolfo Hansen - Grande sertão: veredas dialoga com muita coisa estrangeira. O que falo não é exaustivo e lembro o belo livro de Suzy Sperber sobre isso. Lembro, por exemplo, Dante, citado várias vezes em Grande sertão em fórmulas, como “funil de final”, ou em personagens, como Diadorim, donna angelicata como Beatriz. E também, evidentemente, o diabo. Há também a tradição da novela de cavalaria - Amadis de Gaula, Palmeirim de Inglaterra, a Demanda do Santo Graal, a Mort d' Artu, Roberto do Diabo etc. As epopéias antigas e do século XVI: Homero, Virgílio, Torquato Tasso, Ariosto etc. E a tradição do Fausto - o Fausto medieval alemão, o Fausto de Marlowe, o Fausto de Goethe, o Fausto de Thomas Mann. E muita coisa oriental, hinduísta, budista etc.
Em geral, Rosa estiliza as referências, adaptando-as ao sertão. Por exemplo, textos gregos antigos chamam o Apolo de Delfos de “Lóxias”, skoteinos, “obscuro”, porque falava por enigmas através da Sibila. Em O recado do morro, Rosa cita esse Apolo quando o Gorgulho grita para a montanha: “Não me venha com lóxias!”.
Também Cervantes. No Dom Quixote, Sancho representa a cultura popular oral e Quixote, a cultura culta letrada, o que vemos reproduzido na posição do Riobaldo sertanejo conversando com o doutor ilustrado. Além disso, há citações de fórmulas. Por exemplo, no capítulo XXV da 2ª parte de Dom Quixote, o diabo passa “levantando caramillos en el viento y grandes quimeras de nonada”, o que é estilizado várias vezes, por exemplo, como “O diabo na rua no meio do redemunho”.


IHU On-Line – O senhor observa, em seu estudo sobre Grande sertão, que Riobaldo é “uma espécie de Macunaíma a sério, por sua boca passa o mito como vontade de fundar uma origem a partir da qual representações imaginárias, formações ideológicas se intertextualizam e, fazendo-se como fala, dão-se como história na estória”. Riobaldo pode ser visto, a exemplo de Macunaíma, como um personagem que expressa o Brasil?


João Adolfo Hansen - Riobaldo expressa o Brasil não como unidade, mas como a mistura monstruosa e intotalizável que é. Lembremos que no presente da leitura do livro ele é fazendeiro, crente em Deus, casado, rezador, supersticioso, kardecista etc. E, no passado que conta, é raso jagunço atirador cachorrando pelo sertão, reproduzindo as leis da submissão à benevolência violenta de coronéis latifundiários e as crenças populares em Deus e no diabo etc. Sua fala é torta entortada, sem unidade, montada por paradoxos que esvaziam as representações que expressam o Brasil.

Nenhum comentário: