quinta-feira, agosto 28, 2008

O universo toca jazz




A revista francesa La Vie reencontrou um dos maiores astrofísicos atuais, o vietnamita radicado nos Estados Unidos Trinh Xuan Thuan e o entrevistou. Trinh concluiu o doutorado em 1974 na Universidade de Princeton (Estados Unidos), sob a direção do célebre astrofísico Lyman Spitzer. Desde 1976, ensina Astrofísica na Universidade de Virgínia. Desde então ele divide seu tempo entre os Estados Unidos e a França, onde é membro da Universidade Interdisciplinar de Paris.
Trinh Xuan Thuan publicou inúmeros artigos sobre a formação e a evolução das galáxias e é autor de diversos livros sobre o assunto. Em português se pode encontrar O agrimensor do cosmo, editado pela Unesp, em 2002.


Segue a íntegra da entrevista que Trinh Xuan Thuan concedeu a Jean-Pierre Lentin e que está publicada na revista La Vie, 7-14 de agosto de 2008. A tradução é do Cepat.


Todos os anos, em agosto, durante cerca de dez dias, uma chuva de estrelas cadentes risca o céu noturno de maneira irregular, aleatória e imprevisível. Esses rastos luminosos são pequenos meteoritos que se consomem ao entrar na atmosfera. O fenômeno se deve à passagem dos restos de um cometa e ilustra perfeitamente as teorias do astrofísico Trinh Xuan Thuan sobre o caráter criativo e inesperado de um universo que em outros tempos se acreditava regrado como um relógio.


De fato, o cosmos está em permanente evolução. Certamente, regido pelas leis da física, mas capaz de nos reservar uma infinidade de surpresas. De origem vietnamita, francófono e apaixonadamente francófilo, Trinh Xuan Thuan mora nos Estados Unidos. Especialista da formação e da evolução das galáxias, professor na Universidade de Virgínia, ele tem a paixão de comunicar seu saber, especialmente ao grande público. Ele conta a história do cosmos em termos de imagens, recheadas de exemplos concretos, sempre refinados e muitas vezes poéticos, aos quais sua espiritualidade budista não é estranha.


Quais são os princípios que regem a vida do cosmos?


A concepção do universo evoluiu com o tempo. Os gregos, Aristóteles, por exemplo, pensavam que as leis eram diferentes no céu e na Terra. O céu era o reino das curvas perfeitas e da permanência. A Terra, o lugar da imperfeição, do usure, da morte. E depois, Newton, no século XVII, estabeleceu a lei da gravidade universal. Foi uma revolução: as mesmas leis presidem os movimentos dos astros e à queda de uma maçã num pomar. Seguiu-se um período “determinista” e reducionista, em que Laplace estava convencido de que as medidas cada vez mais precisas iriam permitir de predizer o menor movimento no universo. Uma terceira revolução se produz no século XX, com a teoria do caos, segundo a qual o aleatório e a criatividade são elementos essenciais. O universo não é regulado como um relógio, mas uma multidão de acontecimentos inesperados que se desenrolam constantemente.
Você evoca com freqüência a música em astrofísica.


Por causa da harmonia que reina no universo. Há algumas semanas, participei de um festival de jazz, em que expliquei que a natureza toca jazz. O universo é regido pelas leis impostas desde a primeira fração de segundo, como a gravidade, o eletromagnetismo, etc. Mas não se trata de um determinismo como Newton ou Laplace o pensavam no século XVII. O universo floreia sobre as leis físicas como um tocador de jazz floreia sobre uma trama musical em função de sua inspiração, do público, e, portanto, o trecho nunca é o mesmo. A teoria do caos, a mecânica quântica, o que chamamos de imprecisão quântica, permite à natureza florear sobre as leis físicas e recriar. Sempre há livre arbítrio.
Há uma palavra que se encontra com freqüência nas suas obras: mistério.
O universo, o todo, é o maior mistério do mundo. E é este mistério que motiva o cientista. Ele tenta avançar, mas quando resolve uma questão, outras surgem. É como uma hidra de milhares de cabeças: quando cortamos uma, surgem milhares de outras. A meta se afasta sem cessar, e o mistério permanece. Mas é uma sorte, e se conhecêssemos todo o universo, os cientistas se aborreceriam.


Não há certa arrogância nos físicos que acreditam alcançar logo a “teoria do tudo”?


Também é arrogância pensar que o método científico é o único para alcançar esse mistério. Muitos cientistas pensam que a arte, a poesia não são tão válidas quanto o método científico. Ora, um grande artista, um grande poeta traz tanta iluminação, luz, sobre o universo, sobre o real, quanto um cientista ou um religioso.


O que sabemos sobre o nascimento do universo?


A teoria do Big Bang encontra-se numa situação muito sólida. Especialmente, a do universo estacionário do inglês Fred Hoyle (1915-2001). Mas a radiação fóssil, descoberta há dois anos por dois satélites dotados de um sistema de microondas, foi um avanço extraordinário. De alguma maneira, é um vestígio do calor emitido pelo Big Bang. Nós o situamos a uma distância temporal de aproximadamente 14 bilhões de anos. Mas as circunstâncias exatas permanecem um enigma.
Mas ainda...
Os telescópios voltam no tempo, mas há uma barreira a 380.000 anos. É como uma névoa espessa. O universo ainda era muito quente, os átomos não podiam se formar. Os elétrons ainda eram livres, a luz não podia se propagar. O universo era apenas uma imensa sopa de partículas primordiais. Desta maneira, este período só pode ser explorado por aceleradores de partículas. Eu espero impacientemente os primeiros resultados do LHC, de Genebra, o maior acelerador de partículas, que deverá entrar em funcionamento dentro de alguns meses.


Você acredita que ele trará informações sobre os primeiros segundos do Big Bang?


Pode ser. A grande questão é como são formados os átomos, o oxigênio, o carbono, o silício, que possibilitaram a geração das estrelas, da matéria, logo aquilo que nos constitui, o DNA, a vida. Não nos esqueçamos de que somos poeira das estrelas! Sem esta disseminação da matéria, não estaríamos aí para falar. A criação da matéria e do universo depende de fenômenos extremamente delicados e sutis. A menor nuança, a mais ínfima diferença teria mudado tudo. A “regulação” inicial foi de uma precisão alucinante.


Acaso ou necessidade?


Eu não acredito num Deus barbudo que criou o universo ex nihilo. Neste campo, sou um discípulo de Spinoza. Eu creio num princípio criador e nas leis naturais. A harmonia e a beleza dependem de um equilíbrio muito sutil entre ordem e caos. É, de alguma maneira, uma visão panteísta.


Existe uma cosmogonia budista?


Para o budismo, a questão da criação não se coloca por causa dos princípios de interdependência e de vacuidade. Nenhum objeto existe separadamente e com direito próprio. Tudo está interconectado, e inclusive o processo da criação do mundo. Quando perguntavam ao Buda se o mundo era finito ou infinito, ou se alguém criou o universo, ele respondia: “A questão da origem do universo, por mais interessante que seja, não deve ser a vossa maior preocupação. Se vós sofreis interiormente, é preciso tentar resolver os sofrimentos em vós mesmos”. Por causa da minha profissão, eu me interesso pelas questões da origem, mas uma coisa não exclui a outra. Uma transformação interior pode ajudar a compreender o mundo exterior também.


Você acredita que um dia, enfim, os mistérios serão todos elucidados?
Não. O mistério último nunca será elucidado.

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