quinta-feira, agosto 07, 2008

'O cristianismo é o único a realçar o caráter mimético da violência'



'O cristianismo é o único a realçar o caráter mimético da violência'. Entrevista com René Girard

O jornal francês La Croix, publica uma série de reportagens sobre os dez mandamentos. Comentando o quinto mandamento, "Não matarás", o jornal, no dia 01-08-2008, entrevistou René Girard (1), da Academie Française.

Eis a entrevista.
Que sentido você dá ao mandamento “Não matar”?

As religiões arcaicas fundavam-se sobre o apelo ao homicídio e aos sacrifícios rituais para resolver o problema da violência, restabelecendo a unidade da comunidade contra uma vítima. É o que chamei de o fenômeno do bode expiatório. Quando este homicídio ocorre, a vítima adquire um prestígio considerável, os bodes expiatórios são divinizados por causa de sua virtude reconciliadora. As religiões arcaicas são fundadas sobre a ilusão de que aqueles bodes expiatórios são deuses porque estabelecem certa paz entre os homens. É esta paz que se renova imolando vítimas humanas ou animais deliberadamente escolhidos para este fim. O mandamento da Bíblia rompe categoricamente com esta prática. O cristianismo nos ensina que isto é uma ilusão, uma fraude que usamos conosco. Todas as grandes cenas da Bíblia vão no sentido da abolição ou da diminuição da violência contra o homem, como o não-sacrifício de Isaac no Antigo Testamento, substituído no último momento por um cabrito. Na paixão de Cristo, é exatamente o inverso, o assassínio religioso e, pela primeira vez, categoricamente refutado. Cristo se oferece como vítima para revelar a verdade aos homens. Em vez de sacrificar outros – o comportamento normal dos homens -, Cristo se oferece como vítima para revelar aos homens como ele é, ou seja, totalmente estranho à violência.

O Antigo Testamento e os Evangelhos são os únicos textos fundantes que condenam o homicídio e a vingança?

Penso que sejamos os únicos a condenar o assassínio religioso. A condenação do homicídio na Declaração dos direitos do homem não é uma invenção do humanismo ocidental, mas uma invenção cristã. O humanismo se mostrou ainda mais impotente do que o cristianismo em pô-la em prática, já que nós estamos hoje colocados num universo que a todo instante corre o risco de destruir-se.

A proibição cristã não impediu as cruzadas, as guerras religiosas, as guerras mundiais e os genocídios. Como explica este insucesso?

O cristianismo não tomou em consideração o pecado original. Pecado original quer dizer que o homem está disposto ao pecado, quer dizer que é muito difícil viver sem confrontar-se com o próprio vizinho, sem desejar a mesma coisa que ele possui, sem se tornar seu rival. Descobertas recentes em neurologia mostram que a imitação é primária e é o meio essencial de aprendizagem para o neonato. Só podemos escapar do mimetismo compreendendo as leis: somente a compreensão dos perigos da imitação nos permite conceber uma autêntica identificação com o outro. Logo que imitamos o modelo dos nossos desejos, desejamos a mesma coisa que o outro deseja. Esta rivalidade mimética é a causa principal e fundamental da violência entre os homens. O cristianismo é o único que evidencia este desejo mimético. Se o homem é homicida, é porque tem o homicídio nele mesmo e porque há algo que é o pecado original. O pecado original é Caim e Abel, a rivalidade que gera o homicídio.

O mundo globalizado de hoje está pronto para entender a mensagem cristã de reconciliação e de renúncia à violência?

A verdade se torna hoje mais evidente, também se pouquíssimos indivíduos se convertem. Nossa civilização é mais criadora e potente do que nunca, mas também mais frágil e mais ameaçada, já que não dispõe mais da proteção do religioso arcaico. Em nome do desejo de bem-estar e progresso, os homens produzem os meios para se autodestruir. Nosso mundo está ameaçado e é totalmente impotente para adotar as medidas necessárias para evitar os perigos mais imediatos, como o aquecimento climático, as manipulações genéticas ou a proliferação nuclear.

O terrorismo islâmico é uma nova etapa do crescimento dos extremismos, um retorno ao arcaico?

O crescimento dos extremismos se serve do islamismo. O terrorismo substitui a guerra que volta a ser uma empresa privada, sobre a qual os Estados não têm mais controle. A guerra não é mais contida por regras institucionais que limitavam sua duração e seus efeitos. Quanto mais o homem é capaz de produzir a violência, mais a produz. Estamos hoje ameaçados por um furto da arma atômica por parte de indivíduos que não hesitarão em servir-se dela. A posse dos meios de destruição mais aperfeiçoados é um sinal do retorno ao arcaico. O islã tentou impor regras à violência através de sua forte capacidade de organização, e o mundo islâmico não se identifica com o desencadear de uma violência à qual seremos estranhos. No entanto, penso que o cristianismo tenha uma visão mais profunda da violência. Na Paixão, a crucifixão de Cristo revela a violência. É a revelação do homicídio fundador, o resultado do mecanismo “vitimário” e é Jesus que torna isto visível, “sofrendo esta violência injusta e expondo-a aos olhares de todos, privando-a assim de sua potência fundadora”.

Para renunciar à violência, o homem deve renunciar ao desejo?

O cristianismo diz que o homem deve desejar Deus. Hoje, os indivíduos inteligentes e ambiciosos parecem voltados ao acréscimo da potência e à repetição dos erros do passado. Os textos apocalípticos dos Evangelhos anunciam precisamente que os homens sucumbirão sob sua violência. É o fim do mundo permitido pelos homens. O paradoxo é que a humanidade seja mais cética do que nunca numa época em que sabe ter todos os meios para se destruir. De sua parte, os cristãos interpretam freqüentemente o cristianismo como uma simples filosofia otimista e, sob o pretexto de encorajar, dão somente uma versão adocicada. Seria melhor alarmar as pessoas e despertar as consciências adormecidas, antes do que negar os perigos. Vivemos juntos no melhor e no pior dos mundos. Os progressos da humanidade são reais. Nossas leis são melhores e nos matamos menos uns aos outros. Ao mesmo tempo, não queremos ver nossas responsabilidades nas ameaças e nas possibilidades de destruição que pesam sobre nós. Os textos cristãos, em particular os textos apocalípticos, se adaptam de maneira impressionante à realidade presente, isto é, uma confusão entre desastres causados pela natureza e desastres causados pelos homens, uma confusão entre o natural e o artificial. No ciclone que devastou Nova Orleans, não se podia distinguir a responsabilidade da natureza daquela dos homens.

Não é demasiado tarde para remediar?

Chegamos a um mundo no qual nos encontraremos colocados diante da alternativa cristã, o reino de Deus ou a destruição total, a reconciliação ou nada. Os homens procuram escapatórias para não ver o que se lhes impõe, para não ser pacíficos, para não encontrar o outro. O cristianismo é a única utopia que diz a verdade sobre esta situação. Ou os homens a realizarão, renunciando à violência, ou se autodestruirão. Será a violência absoluta ou a paz.

Nota:
(1) René Girard, nascido em 1923 em Avignon, vive em Stanford nos Estados Unidos, onde ensinou literatura francesa. Foi eleito em 2005 à Academie française. Elaborou uma antropologia da violência e de sua relação com o religioso. Baseando-se tanto na psicanálise como em textos literários, funda sua teoria sobre três instrumentos de análise: o “desejo mimético”, o mecanismo do bode expiatório e a revelação destruidora do mecanismo vitimário. Segundo Girard, a revelação evangélica manifesta aos homens a verdade sobre a violência e lhes propõe renunciar a ela definitivamente.

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