quarta-feira, junho 04, 2008

Clamores por novos tempos em Roma


Martini pede a reforma da Igreja

O influente cardeal elogia Martinho Lutero, defende o debate sobre o celibato e a ordenação de mulheres e reclama uma abertura do Vaticano em matéria de sexo. Carlo Maria Martini acaba de publicar o livro Colóquios noturnos em Jerusalém, que é uma confissão a um co-irmão austríaco, George Sporschill.
Segue a íntegra do artigo de Juan G. Bedoya publicado no El País, 25-05-2008. A tradução é do Cepat.
“A Igreja deve ter a audácia de se reformar”. Esta é a idéia força do cardeal Carlo Maria Martini (Turim, 1927), um dos grandes eclesiásticos contemporâneos. Com elogios ao reformador protestante Martinho Lutero, o cardeal pede à Igreja católica “idéias” para discutir inclusive a possibilidade de ordenar viri probati (homens casados, mas de provada fé) e mulheres. Também reclama uma encíclica que ponha fim às proibições da Humanae Vitae (1968) de Paulo VI, que contém severas censuras em matéria de sexo.
O cardeal Martini foi reitor da Universidade Gregoriana de Roma, arcebispo da maior diocese do mundo (Milão) e papável. É jesuíta, publica livros, escreve em jornais e debate com intelectuais. Em 1999, pediu no Sínodo de Bispos Europeus a convocação de um novo Concílio para concluir as reformas pendentes do Vaticano II, realizado em Roma entre 1962 e 1965. Agora volta à atualidade porque está sendo publicado na Alemanha (pela editora Herder) o livro Colóquios noturnos em Jerusalém, a modo de testamento do grande pensador. É assinado por Sporschill, também jesuíta.
Sem rodeios, Martini pede às autoridades do Vaticano coragem para se reformar e mudanças concretas, por exemplo, nas políticas do sexo, um assunto que sempre deixa nervosos e irados os papas, desde que sejam solteiros.
O celibato, sustenta Martini, deve ser uma vocação porque “talvez nem todos têm o carisma”. Espera, além disso, a liberalização para o uso dos preservativos. E nem sequer se assustaria com um debate sobre o sacerdócio negado às mulheres porque “encomendar cada vez mais paróquias a um pároco ou importar sacerdotes do estrangeiro não é uma solução”. Martini lembra que no Novo Testamento já havia diáconos.
Vários jornais europeus já ecoaram a publicação de Colóquios noturnos em Jerusalém, sublinhando a exortação do cardeal a não se afastar do Concílio Vaticano II e a não ter medo de “se confrontar com os jovens”.
Sobre o sexo entre jovens, Martini convida-os a não desperdiçarem relações e emoções, aprendendo a conservar o melhor para a união matrimonial. E rompe os tabus de Paulo VI, João Paulo II e do papa atual, Joseph Ratzinger. Disse: “Infelizmente, a encíclica Humanae Vitae teve conseqüências negativas. Paulo VI evitou de forma consciente que o tema fosse tratado pelos padres conciliares. Quis assumir pessoalmente a responsabilidade de decidir sobre os anticoncepcionais. Esta solidão na decisão não foi, no longo prazo, uma premissa positiva para tratar dos temas da sexualidade e da família”.
O cardeal pede um “novo olhar” em relação ao assunto, quarenta anos depois do Concílio. Quem dirige a Igreja hoje pode “indicar um caminho melhor que a Humanae Vitae”, sustenta.
Sobre a homossexualidade, o cardeal disse com sutileza: “Entre meus conhecidos há casais homossexuais, homens muito estimados e sociáveis. Nunca me foi pedido, nem me teria ocorrido, condená-los”.
Martini aparece no livro com toda a sua personalidade e uma curiosidade intelectual sem limites. A ponto de reconhecer que quando era bispo perguntava a Deus: “Por que não nos ofereces idéias melhores? Por que não nos fazes mais fortes no amor e mais corajosos para enfrentar os problemas atuais? Por que temos tão poucos padres?”.
Hoje, aposentado e doente – acaba de deixar Jerusalém, onde se dedicava a estudar os textos sagrados, para ser atendido por médicos na Itália –, limita-se a “pedir a Deus” para que não o abandone.
Além do elogio a Lutero, o cardeal Martini desvela suas dúvidas de fé, recordando as que teve Teresa de Calcutá. Também fala dos riscos que um bispo tem que assumir, em referência à sua visita a uma prisão para falar com militantes do grupo terrorista Brigadas Vermelhas. “Os escutei e rezei por eles e inclusive batizei dois gêmeos filhos de pais terroristas, nascidos durante um processo”, relata.
“Tive problemas com Deus”, confessa Martini num determinado momento. Foi porque não conseguia entender “por que razão fez sofrer o seu Filho na Cruz”. Acrescenta: “Mesmo quando era bispo algumas vezes não conseguia olhar para um crucifixo porque a dúvida me atormentava”. Também não conseguia aceitar a morte. “Deus não teria podido poupá-la aos homens após a morte de Cristo?” Depois entendeu: “Sem a morte não poderíamos entregar-nos a Deus. Manteríamos abertas as saídas de segurança. Mas não. É preciso entregar a própria esperança a Deus e crer nele”.
De Jerusalém a vida é vista de outra maneira, sobretudo as parafernálias de Roma. Martini conta-o da seguinte maneira: “Houve um tempo no qual sonhei com uma Igreja na pobreza e na humildade, que não dependesse das potências deste mundo. Uma Igreja que dá espaço às pessoas que pensam além. Uma Igreja que dá coragem, em especial a quem se sente pequeno ou pecador. Uma Igreja jovem. Hoje já não tenho esses sonhos. Depois de 75 anos decidi rezar pela Igreja”.
Nunca mais o ‘erro Galileu’
O cardeal Martini sempre se empenhou em estabelecer um campo de discussão comum entre laicos e católicos, enfrentando também aqueles pontos em que não há consenso possível. Com essa intenção abriu um dos debates mais saborosos entre intelectuais contemporâneos, publicado em 1995 na Itália com o título In cosa crede qui non crede? (Em que crêem os que não crêem? Rio de Janeiro: Record, 2000). Tratava-se de uma série de cartas trocadas entre o cardeal e Humberto Eco, sobre temas como quando começa a vida humana, o sacerdócio negado à mulher, a ética, ou como o laico pode encontrar a luz do bem. Um setor da hierarquia católica assistiu à controvérsia com indisfarçado embaraço, mas uma década depois, o próprio cardeal Joseph Ratzinger, hoje papa Bento XVI, entabulou um debate semelhante com o filósofo alemão Hürgen Habermas sobre a relação entre fé e razão.
O cardeal Martini lamentou, em 1995, que sua igreja vivesse sumida em “desolada resignação em relação ao presente”. Também falou sobre o medo da ciência e do futuro. Fê-lo, então, “com tesouros de sutileza”, como ele próprio reconheceu. Colocava como testemunha a prudência de Tomás de Aquino em semelhantes compromissos, por medo de Roma, que esteve a ponto de castigar aquele que agora é um de seus guias mais ilustres.
O cardeal, já aposentado – quer dizer, mais livre do que quando exercia responsabilidades hierárquicas –, se expressa no novo livro com a mesma sutileza que usou no debate com Umberto Eco, mas coloca sobre a mesa pontos de vista surpreendentes para seus pares, como o controle da natalidade e os preservativos. Soam também como golpes seus elogios a Martinho Lutero e o desafio feito a Roma para que empreenda com coragem algumas das reformas reclamadas em seu tempo pelo frei alemão.
No transfundo de suas manifestações de agora, onde o cardeal aparece às vezes angustiado – com um sentimento mais trágico de sua fé –, surge o debate interminável do enfrentamento da Igreja de Roma com a ciência e o pensamento modernos. Novamente, é um jesuíta que volta a colocar a discussão, para desgosto do Vaticano. A vantagem de Martini é que já não está ao alcance de nenhuma pedrada. O também jesuíta George Tyrrell, o erudito tomista irlandês, foi castigado sem apelação e suspenso de seus sacramentos. Inclusive lhe foi negado sepultura num cemitério católico quando faleceu em 1909. Seu pecado: reivindicar, como Martini, o direito de cada época a “adaptar a expressão do cristianismo às incertezas contemporâneas, para apaziguar o conflito absolutamente desnecessário entre fé e ciência, que é um mero espantalho teológico”.
O que todos estes pensadores católicos buscam é espantar qualquer risco de cometer outra vez o erro Galileu. É outra das exigências do cardeal.
Fonte: Unisinos

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