sexta-feira, maio 30, 2008

O cardeal e a fé: a tentação do ateísmo


O cardeal e a fé: a tentação do ateísmo

Há uma voz em cada um de nós que nos impele a duvidar de Deus. “Eis o sentido da fé e a dificuldade de segui-lo até o fundo.” A afirmação é Carlo Maria Martini, cardeal jesuíta, arcebispo emérito de Milão, em artigo publicado no jornal Corriere della Sera, 16-11-2007.
Eis o artigo.

Quem é Deus para mim? Desde menino sempre me agradou a invocação que me parece seja de São Francisco de Assis, “meu Deus e meu tudo”. Agradava-me, porque com Deus eu entendia de certa forma uma totalidade, uma realidade na qual tudo se resume e tudo encontra razão de ser. Procurava exprimir assim o mistério inefável, ao qual nada se subtrai. Mas eu também via Deus mais concretamente como o Pai de Jesus Cristo, aquele Deus que se torna próximo de nós em Jesus na Eucaristia. Era, portanto, uma série de imagens que, de certa maneira, se acavalavam ou se substituíam uma à outra: uma mais misteriosa, atinente àquele que é o incognoscível, a outra mais precisa e concreta, que passava pela figura de Jesus.

Dei-me conta, bem cedo, que falar de Deus queria dizer enfrentar uma duplicidade, como uma contradição quase insuperável. Ou seja, a de pensar numa Realidade sagrada inacessível, num Ser profundamente distante, de quem não se pode dizer o nome, de quem não se sabe quase nada e tudo isso na certeza que este Ser está próximo de nós, nos ama, nos procura, nos quer, se dirige a nós com amor compassivo e perdoador. Manter unidas estas duas coisas parece um pouco impossível, como, de resto, manter unidas a justiça rigorosa e a misericórdia infinita de Deus. Nós não escolhemos entre uma e a outra, vivemos nos equilibrando (...). Como diz o Catecismo da Igreja católica, a declaração “eu creio em Deus” é a mais importante, a fonte de todas as outras verdades sobre o homem, sobre o mundo e toda a vida de todo aquele que nele crê. De outra parte, o próprio fato de que se fala de “crer” e não de reconhecer simplesmente sua existência, significa que se trata concretamente de um ato que não é de um simples conhecimento dedutivo, mas que envolve todo o homem numa dedicação pessoal. Sobre este ponto, como sobre tantos outros relativos ao conhecimento de Deus, houve, há e sempre haverá grande discussão. Para alguns a realidade de Deus se conhece mediante um simples raciocínio, para outros são necessárias também muitas disposições do coração e da pessoa (...).
- É então possível conhecer Deus com as meras forças da razão natural?

O Concílio Vaticano I o afirma e também eu sempre o retive em obediência ao Concílio. Mas talvez se trate da razão natural concebida em abstrato, antes do pecado. Concretamente, nossa natureza humana histórica, empastada de desvios, necessita de ajudas concretas que lhe sejam dadas em abundância pela misericórdia de Deus. Por conseguinte, não é tão importante a distinção entre a possibilidade de conhecimento natural e sobrenatural, porque nós conhecemos Deus de um modo que vem simultaneamente da natureza, da graça e do Espírito Santo, que é infundida em nós pelo próprio Deus. É, pois, preciso aceitar que se diga a respeito de Deus algumas coisas que podem parecer contraditórias.

Deus é Aquele que nos procura e, ao mesmo tempo, Aquele que se faz procurar. É aquele que se revela e simultaneamente aquele que se esconde. É aquele para quem valem as palavras do salmo “a tua face, Senhor, eu procuro”, e tantas outras palavras da Bíblia, como aquelas da esposa do Cântico dos Cânticos:

“No meu leito, durante a noite, procurei o amado do meu coração, eu o procurei, mas não o encontrei. Levantar-me-ei e farei a volta da cidade, pelas ruas e pelas praças quero procurar o amado do meu coração. Eu o procurei, mas não o encontrei. Há pouco havia ultrapassado os guardas que fazem a ronda, quando encontrei o amado do meu coração...” (3, 1-4).
Mas, para ele, vale também a palavra que o apresenta como o pastor que procura a ovelha desgarrada no deserto, como a mulher que varre a casa para encontrar a moeda perdida, como o pai que espera o filho pródigo e que desejaria que ele voltasse logo. Por conseguinte, procuramos Deus e somos procurados por ele. Mas é certamente ele que primeiro nos ama, nos procura, nos lança, nos perdoa. Neste ponto, solicitados também pelas palavras do Cântico “procurei Deus e não o encontrei”, coloquemo-nos o problema do ateísmo, ou melhor, da ignorância sobre Deus.
Nenhum de nós está longe de tal experiência: existe em nós um ateu potencial que grita e sussurra a cada dia suas dificuldades em crer. Sobre este princípio se fundava a iniciativa da “Cátedra dos não crentes” que queria, propriamente, “colocar os não crentes numa cátedra” e “escutar quanto eles têm a dizer-nos sobre seu não conhecimento de Deus”. Quando se fala de “crer em Deus”, como o faz o Catecismo da Igreja católica, admite-se expressamente que há, no conhecimento de Deus, certo ato de confiança e de abandono. Sabemos bem que não se pode constranger ninguém a ter confiança. E sem confiança não se vive (...). A adesão a Deus comporta uma atmosfera geral de confiança na justeza e na verdade da vida e, portanto, na justeza e na verdade de seu fundamento.

Como diz Hans Küng: “que Deus exista pode ser admitido, em definitivo, somente com base numa confiança que afunda suas raízes na própria realidade”. Muitos e diversos são os modos pelos quais a gente se aproxima do mistério de Deus. Nossa tradição ocidental procurou compreender Deus possivelmente também com uma definição. Ele foi chamado, por exemplo, Sumo Bem, Ser Subsistente, Ser Perfeitíssimo... Não encontramos nenhuma destas denominações na tradição judaica. A Bíblia não conhece nomes abstratos de Deus, mas enumera suas obras. Pode-se afirmar que aquilo que a Bíblia diz sobre Deus é dito primordialmente com verbos, não com substantivos. Estes verbos referem-se às grandes obras com que Deus visitou o seu povo. São verbos como criar, prometer, escolher, eleger, mandar, guiar, nutrir, etc. Referem-se ao que Deus fez pelo seu povo. Há, portanto, uma experiência concreta, aquela de terem sido ajudados em circunstâncias difíceis, onde a obra humana não teria sido capaz. Esta experiência procura sua razão última e a encontra neste ser misterioso que chamamos Deus. De outra parte, a razão ocidental também tem alguma razão. De fato, todas as criaturas receberam de Deus tudo o que são e que têm. Somente Deus é em si mesmo a plenitude do ser e de toda perfeição, e aquele que é sem origem e sem fim. No entanto, no mistério cristão a natureza de Deus nos aparece gradualmente como envolta por uma luz ainda mais misteriosa. Não é uma natureza simplesmente capaz de se manter por si mesma, de ser independente, de não necessitar de ninguém. É uma realidade que se prolonga para o outro, na qual é mais forte a relação e o dom de si, do que o possuir-se a si mesmo. Por isso, Jesus sobre a cruz nos revela de maneira decisiva o ser de Deus como ser para outros: é o ser Daquele que se doa e perdoa.

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