sábado, dezembro 30, 2006

Da Vinci decodificado

Da Vinci decodificado


Novas tecnologias permitem descobertas de elementos ocultos nas obras de grandes mestres do Renascimento, mas, no lugar de códigos secretos, os cientistas encontram revelações sobre a arte

Fábio de Castro escreve para a “Agência Fapesp”:

Graças às novas tecnologias e à dedicação de cientistas de diversas áreas, obras de mestres como Leonardo da Vinci (1452-1519) continuam a ser descobertas e a revelar novas dimensões artísticas e novos sentidos históricos.

No entanto, o movimento interdisciplinar que toma conta da Europa, aliando ciência e estética para revelar o patrimônio artístico oculto, vai no sentido contrário do best-seller Código da Vinci, do norte-americano Dan Brown.

Segundo o professor Luiz Roberto Alves, da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) e da Universidade Metodista, estudos recentes mostram que as obras de Da Vinci, em vez de ocultarem códigos secretos, revelam os fundamentos de toda a obra do gênio do Renascimento, trazendo à tona seu conhecimento e discurso sobre o real.

“A ciência revela a arte que está oculta por trás das camadas históricas e não menções a fatos históricos ocultos por trás da arte”, disse à Agência Fapesp.

Alves é atualmente pesquisador visitante da Universidade de Florença, na Itália, onde tem participado de encontros científicos sobre a relação entre ciência e arte.

Ele tem acompanhado o trabalho do italiano Maurizio Seracini, o único pesquisador vivo mencionado na obra de Brown. “O Código da Vinci é visto aqui como uma profunda mistificação. Predomina a idéia de que os produtores geniais não são criadores de códigos, mas reveladores de códigos”, afirmou.

Um exemplo do trabalho da equipe de Seracini, segundo Alves, é a possível descoberta de um afresco de Da Vinci, que estaria oculto há mais de 500 anos por trás da pintura Batalha de Marciano, de Giorgio Vasari, no Palazzo Vecchio, em Florença.

“Os cientistas estão usando radar e fazendo um estudo termográfico da parede para encontrar o lugar adequado em que possa ser introduzida uma sonda com fibra endoscópica, a quatro centímetros de profundidade. Com isso, espera-se que a obra original venha à tona”, explica Alves.

Segundo o professor, devido a disputas políticas da época, decidiu-se remodelar a sala onde se encontrava o afresco, denominado Batalha de Anghiari. A existência da obra é atestada por relatos do próprio Vasari, que a qualificava como “a mais excelente mostra da genialidade de Leonardo, pelo tratamento das figuras em luta”.

Os especialistas acreditam que, por ser admirador de Da Vinci, Vasari jamais destruiria a pintura. Investigando o local onde ele pintou um novo mural, descobriram uma cavidade por trás da parede.

“Tudo indica que a obra de Da Vinci está lá e que Vasari construiu uma parede por cima para preservá-la. Estão sendo utilizadas técnicas baseadas no uso de laser, cintilografia e estratigrafia. O trabalho todo deverá durar algumas dezenas de anos”, disse Alves.

As novas ferramentas tecnológicas, aliadas ao conhecimento histórico e científico, serão fundamentais para revelar o vasto patrimônio artistíco oculto da Europa.

“A cada dia, em Florença, vemos um movimento novo nesse sentido. Há um número indeterminado de pinturas renascentistas que sofreram intervenções ou que simplesmente foram cobertas e emparedadas no decorrer da história, num verdadeiro massacre estético”, disse o pesquisador brasileiro.

Mensagem recuperada

O trabalho mais famoso da equipe de Seracini, segundo Alves, consistiu em revelar novas cenas no conhecido painel A adoração dos magos, também de Da Vinci. A pesquisa empregou o método geológico da estratigrafia transversal, que leva ao conhecimento das camadas de materiais usados na passagem do tempo.

De acordo com os pesquisadores, o painel de madeira foi trabalhado em duas épocas distintas. Leonardo da Vinci teria deixado a obra incompleta em 1481, quando se transferiu de Florença para Milão.

Um artista anônimo a completou com uma pintura monocromática, que não define os contornos do desenho esboçado.

“A obra foi distorcida e encoberta. A primeira síntese da pesquisa indica que o grandioso momento criativo de Leonardo consistiu na qualidade excepcional do desenho preparatório”, conta Alves.

O trabalho reflectográfico com infravermelho mostra desenhos de várias personagens da arquitetura vinciana ofuscadas na pintura monocromática posterior. O pincel do artista invasor apagou luzes, tons e mensagens de Da Vinci.

“O trabalho científico recoloca a intensidade da mensagem de Leonardo. O desenho remete à verdade da luz, capaz de construir imagens universais de cultura, de construção simbólica da vida. O trabalho científico recoloca a intensidade da mensagem vinciana, como alguns textos do profeta Isaías, que destacam a superação da luta e a paz como norma e não exceção”, afirmou.

Segundo Alves, os avanços da ciência que possibilitaram essas descobertas começaram a surgir nos últimos 20 anos. Sem isso, a obra do mestre toscano ficaria diminuída na história.

“Da Vinci era um cientista, uma pessoa de uma visão realista fantástica, que estaria em destaque em qualquer época que vivesse. Ele é um dos grandes reveladores do espírito humano. E quem o ajuda nessa revelação não é Dan Brown, que o vê como um ocultador de segredos, mas a ciência”, disse.
(Agência Fapesp, 6/12)

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